Diretora exonerada cinco dias após registrar B.O contra secretário de MT

Duas diretoras perderam seus cargos em circunstâncias questionáveis, com uma sofrendo atraso salarial durante licença médica.
Todos já tinham conhecimento, menos ela mesma
Zulema descobriu sua exoneração lendo o Diário Oficial, sem aviso prévio da secretaria.

Iltenir Ferreira de Queiroz de Moura denunciou tentativas do secretário Dimorvan Alencar Brescancim de removê-la desde 2023, com objetivo de colocar coordenadora pedagógica no cargo. Ex-diretora da ETEC de Cáceres relata padrão similar de obstáculos burocráticos e favorecimento a coordenador pedagógico com acesso privilegiado ao secretário.

  • Iltenir Ferreira de Queiroz de Moura exonerada cinco dias após registrar B.O. contra secretário Dimorvan Alencar Brescancim
  • Diana Lourdes Pizzi Dal Piva nomeada diretora no mesmo dia da exoneração de Iltenir
  • Zulema Netto Figueiredo, ex-diretora da ETEC de Cáceres, relata padrão similar de obstáculos burocráticos desde 2023
  • Iltenir teve salário não pago durante licença médica de 30 dias

Diretora de escola técnica em Mato Grosso foi exonerada cinco dias após registrar boletim de ocorrência contra secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, alegando perseguição e sabotagem.

Na quarta-feira 17 de junho, o Diário Oficial de Mato Grosso publicou a exoneração de Iltenir Ferreira de Queiroz de Moura do cargo de diretora da Escola Técnica Estadual de Educação Profissional e Tecnológica de Primavera do Leste, a 236 quilômetros de Cuiabá. No mesmo dia, a mesma publicação oficial anunciou a nomeação de Diana Lourdes Pizzi Dal Piva, até então coordenadora pedagógica da mesma unidade, para o cargo de diretora. Cinco dias antes, Iltenir havia registrado um boletim de ocorrência contra Dimorvan Alencar Brescancim, secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do estado, acusando-o de perseguição e sabotagem.

Segundo o relato de Iltenir, Dimorvan vinha tentando removê-la do cargo desde 2023, quando ela assumiu a direção da escola técnica. O objetivo, conforme a denúncia, era abrir espaço para que Diana Lourdes — descrita como amiga do secretário — ocupasse a posição. Na quinta-feira anterior ao registro do boletim, Iltenir havia sido procurada por uma advogada e uma servidora da secretaria que lhe informaram estar respondendo a dois processos administrativos. Naquele mesmo período, de licença médica por trinta dias, ela descobriu que a Seciteci havia deixado de pagar seu salário, com promessa de regularização apenas no final de junho.

O padrão denunciado por Iltenir não é isolado. Zulema Netto Figueiredo, doutora em Agronomia e ex-diretora do campus Jane Vanini da Universidade do Estado de Mato Grosso, relata experiência semelhante quando dirigiu a ETEC de Cáceres, a 222 quilômetros de Cuiabá. Convidada em 2023 para organizar a unidade após encerrar sua gestão na universidade, Zulema descreve como Dimorvan — que então ocupava o cargo de adjunto na Seciteci — criava obstáculos burocráticos para suas solicitações. Enquanto isso, um coordenador pedagógico com acesso privilegiado ao secretário tinha suas demandas atendidas com rapidez. Zulema foi exonerada no início de 2025, descobrindo sua saída do cargo apenas ao ler a publicação no Diário Oficial, sem aviso prévio.

Zulema identifica um padrão claro: enquanto coordenadores pedagógicos próximos a Dimorvan recebem tratamento preferencial e respostas rápidas às suas solicitações, os diretores enfrentam barreiras administrativas quando pedem recursos ou pessoal. Ela relata ter tido a impressão de que todos já conheciam sua saída iminente, menos ela mesma. A ex-diretora da Unemat descreve Dimorvan como alguém que, quando ainda era adjunto, travava processos simples e criava dificuldades onde não deveria haver.

A Seciteci respondeu às acusações por meio de sua assessoria de comunicação, afirmando que a secretaria atua de forma técnica e institucional no atendimento às demandas, sem distinção entre servidores ou unidades. Quanto a Zulema, a pasta informou que sua exoneração ocorreu em gestão anterior. Sobre Iltenir, a secretaria esclareceu que ela ocupava cargo de livre nomeação e exoneração, cuja movimentação administrativa observa as prerrogativas legais da administração pública e critérios técnicos e institucionais. A nota final da Seciteci define a exoneração como ato administrativo, com decisões tomadas considerando critérios de gestão e continuidade dos serviços públicos.

Dimorvan não respondeu aos contatos da reportagem no fim de semana nem quando contatado novamente na quarta-feira. A secretaria permanece aberta para sua manifestação pessoal. O que fica em questão é se as exonerações de duas diretoras em circunstâncias questionáveis — uma delas cinco dias após denunciar o secretário, a outra sem aviso prévio — representam de fato decisões técnicas ou se revelam um padrão de pressão sobre gestores que não se alinham aos interesses do secretário. Dimorvan já foi prefeito de Campo Verde, a 134 quilômetros de Cuiabá, na década de 2000.

Esse senhor que entrou como secretário-adjunto de Educação Profissional travou tudo, pedidos simples ele colocava dificuldade
— Zulema Netto Figueiredo, ex-diretora da ETEC de Cáceres
A Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação atua de forma técnica e institucional no atendimento às demandas, sem qualquer distinção entre servidores
— Assessoria de comunicação da Seciteci
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Inventor

Por que uma diretora seria exonerada exatamente cinco dias após registrar uma denúncia contra seu superior?

Model

Porque, segundo ela, o secretário queria seu cargo para colocar alguém próximo. O timing sugere que a denúncia acelerou o processo, não o causou.

Inventor

Mas a secretaria diz que foi um ato administrativo normal. Como saber se é verdade?

Model

Quando você vê o mesmo padrão acontecer com duas diretoras diferentes — obstáculos para uma, rapidez para coordenadores próximos ao secretário — começa a parecer menos coincidência e mais estratégia.

Inventor

A segunda diretora, Zulema, descobriu sua saída lendo o Diário Oficial?

Model

Sim. Sem aviso, sem conversa. Ela diz que todos já sabiam, menos ela. Isso fala algo sobre como as decisões eram tomadas.

Inventor

E o salário que não foi pago?

Model

Iltenir estava de licença médica quando a secretaria "esqueceu" de pagá-la. Só prometeu regularizar no fim de junho. É difícil não ver isso como pressão.

Inventor

O secretário respondeu às acusações?

Model

Não. Sua assessoria respondeu em seu lugar, com uma nota genérica sobre critérios técnicos. Ele não falou diretamente.

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