ApexBrasil prevê aumento de mil milhões em comércio com Europa em 12 meses

Ninguém faz negócio isoladamente; vendem a partir de um país
Müller explica por que a imagem do Brasil no exterior é tão importante para o sucesso comercial.

Num momento em que o protecionismo ameaça as trocas globais, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia surge como uma aposta na abertura — e o Brasil posiciona-se para colher os seus frutos. A ApexBrasil projeta um crescimento de até mil milhões de dólares no comércio bilateral nos próximos doze meses, apoiada numa lista de produtos que vai das uvas frescas aos motores elétricos. Por detrás dos números, há uma estratégia mais ampla: reconstruir a imagem do Brasil na Europa e transformar Portugal numa porta de entrada para empresas brasileiras de todos os tamanhos.

  • Com mais de cinco mil produtos já isentos de taxas aduaneiras na Europa, o Brasil entra numa nova fase comercial — mas o potencial real ainda está por ser totalmente aproveitado.
  • Um estudo interno da ApexBrasil aponta crescimento de 861 milhões de euros apenas em 543 produtos selecionados, criando uma corrida para identificar e ativar os setores mais promissores.
  • A reputação do Brasil na Europa permanece fragilizada por anos de preocupações com desflorestação, e a agência trabalha ativamente para reverter essa perceção antes que ela bloqueie negócios.
  • Casos como o gergelim — de exportações quase nulas a 200 milhões de dólares em dois anos e meio — mostram que mercados ignorados podem transformar-se em fontes de receita expressiva quando a procura externa é identificada.
  • Portugal é agora o pivot estratégico da ApexBrasil na Europa, com o escritório local a funcionar como hub para PME, cooperativas e produtores de agricultura familiar que querem aceder ao mercado europeu.

Laudemir André Müller, presidente da ApexBrasil, vê no acordo Mercosul-UE uma oportunidade rara num mundo que tende a fechar-se. Em entrevista ao Jornal Económico, descreveu o tratado como histórico e como contrapeso ao protecionismo crescente — e apresentou números concretos: considerando apenas 543 produtos já isentos de taxas na Europa, a agência projeta um aumento de até mil milhões de dólares no comércio bilateral nos próximos doze meses. Uvas, componentes automóveis, motores elétricos e aeronaves estão entre os produtos com maior potencial.

A trajetória da ApexBrasil ilustra o que é possível quando mercados negligenciados são identificados. O gergelim passou de exportações praticamente nulas para 200 milhões de dólares em dois anos e meio, após a abertura do mercado chinês e de países árabes. As uvas frescas para a China representam outro avanço, ainda que os desafios logísticos de transportar fruta fresca até à Ásia continuem a ser um obstáculo real. No total, a agência já abriu 616 mercados internacionais e trabalha para chegar aos 700.

Mas Müller é claro: os números não chegam sem reputação. A imagem do Brasil na Europa foi afetada por preocupações com desflorestação, e a agência trabalha ativamente para reconstruí-la — usando, por exemplo, a recente subida do Brasil no índice de desenvolvimento humano como argumento junto de parceiros europeus. Em Portugal, o escritório da ApexBrasil funciona como casa dos empresários brasileiros e como hub de entrada para o mercado europeu, com foco especial em PME, cooperativas e estruturas de agricultura familiar. A ambição, segundo Müller, é clara: mais atividades, mais empresas e uma presença cada vez mais intensa no continente.

Laudemir André Müller, presidente da ApexBrasil, vê no acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia uma oportunidade rara num momento em que muitos países fecham as portas. Numa conversa com o Jornal Económico, descreveu o tratado como histórico para o Brasil — resultado de anos de negociação com os europeus — e o enquadrou como um contrapeso a uma tendência global de protecionismo, restrições tarifárias e abandono das regras multilaterais.

O acordo entrou em vigor com mais de cinco mil produtos brasileiros já isentos de taxas aduaneiras na Europa. Mas os números que Müller destacou são ainda mais específicos: considerando apenas 543 desses produtos, um estudo interno da agência projeta que o Brasil pode aumentar o fluxo comercial com a Europa em até mil milhões de dólares — cerca de 861 milhões de euros — nos próximos doze meses. A lista de produtos com potencial inclui uvas, componentes automóveis, motores elétricos e aeronaves.

A expansão comercial da ApexBrasil reflete-se também no número de mercados internacionais abertos. No final de 2025, a agência havia ultrapassado a marca de 500 mercados. Hoje, esse número subiu para 616, distribuídos por setores e parceiros comerciais diversos. O próximo objetivo é chegar aos 700, embora Müller tenha deixado claro que não existe uma meta formal — o trabalho continua sob a responsabilidade do Ministério da Agricultura, mas a trajetória fala por si.

Dois casos ilustram bem o potencial de mercados até então negligenciados. O gergelim, ou sementes de sésamo, saiu de uma exportação praticamente nula para 200 milhões de dólares em dois anos e meio, principalmente após a abertura do mercado chinês e de países árabes. Trata-se de um produto da quarta safra agrícola brasileira, historicamente pouco valorizado, mas que ganhou relevância quando a demanda externa foi identificada. As uvas frescas para a China representam outro avanço, embora ainda não totalmente aproveitado — os desafios logísticos de transportar fruta fresca do Brasil até à Ásia permanecem imensos.

O papel da ApexBrasil vai além de números e estatísticas comerciais. A agência trabalha na reconstrução da imagem do Brasil no exterior, particularmente na Europa, onde a reputação do país foi afetada por preocupações com desflorestação em anos anteriores. Müller enfatizou que ninguém faz negócio isoladamente — os empresários vendem a partir de um país, e a forma como esse país é percebido importa profundamente. Recentemente, o Brasil atingiu um novo patamar no índice de desenvolvimento humano, uma notícia que a agência usa para demonstrar ao mundo que o país está a melhorar e que possui políticas internas sólidas.

Em Portugal, a ApexBrasil mantém um escritório que funciona como casa dos empresários brasileiros. Müller descreveu-o como ferramenta para fortalecer relacionamentos com o setor privado português e para garantir que as oportunidades geradas pelo acordo Mercosul-UE beneficiem não apenas grandes empresas, mas também pequenas e médias empresas, cooperativas e estruturas de agricultura familiar. A ambição é transformar Portugal numa porta de entrada para a Europa, um hub através do qual empresas brasileiras possam aceder ao mercado europeu mais amplo. O trabalho, segundo Müller, será cada vez mais intenso, com mais atividades e mais empresas brasileiras a serem trazidas para o país.

É um acordo histórico para o Brasil. Trabalhámos muitos anos com os europeus para conquistá-lo.
— Laudemir André Müller, presidente da ApexBrasil
A forma de fazer negócio é muito importante. A imagem do Brasil em 2020 não era muito boa, por causa da desflorestação.
— Laudemir André Müller
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Quando fala em mil milhões de dólares de crescimento em doze meses, está a falar de potencial ou de previsão com base em dados concretos?

Model

É baseado num estudo que fizemos, mas claro que é uma projeção. Considerámos 543 produtos dos cinco mil com tarifa zero e extrapolámos. O mercado real dependerá de muitos fatores — logística, capacidade produtiva, procura efetiva.

Inventor

O gergelim é um exemplo fascinante. Como é que um produto passa de praticamente zero para 200 milhões de dólares em dois anos e meio?

Model

Identificámos a procura, principalmente na China e no mundo árabe. O gergelim é colheita de quarta safra, portanto os agricultores brasileiros nem lhe davam atenção. Quando abrimos o mercado, conseguimos mobilizar produção que já existia mas estava subutilizada.

Inventor

E as uvas frescas para a China? Parece que esse mercado não decolou da mesma forma.

Model

Não, porque a logística é um desafio imenso. Levar fruta fresca do Brasil até à China é complexo — questões de refrigeração, tempo de trânsito, custos. Estamos ainda a trabalhar nesse problema.

Inventor

A imagem do Brasil na Europa melhorou desde 2020?

Model

Sim, significativamente. Em 2020, a desflorestação era a narrativa dominante. Agora conseguimos contar outra história — o Brasil atingiu novos patamares em desenvolvimento humano, tem políticas internas sólidas. Isso muda a forma como os empresários europeus nos veem.

Inventor

Portugal parece ter um papel especial nesta estratégia.

Model

Portugal é a porta de entrada para a Europa. Queremos que o escritório aqui funcione como hub, não apenas para grandes empresas, mas para PME e cooperativas agrícolas. Portugal pode ser o ponto de distribuição para o resto da Europa.

Inventor

Qual é o maior risco para estas projeções?

Model

A realidade sempre é mais complexa que as projeções. Dependemos de políticas comerciais que podem mudar, de capacidade produtiva que pode não acompanhar a procura, de logística que é cara. Mas o acordo está feito, os mercados estão abertos. Agora é trabalho de execução.

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