A negociação agora é política, não técnica
Após décadas de negociações e com as etapas executivas concluídas, o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia entra agora em seu capítulo mais incerto: a aprovação legislativa. O Brasil, pela voz do presidente da ApexBrasil, sinaliza que o Senado está disposto a liderar esse processo, enquanto o contexto geopolítico — marcado pelas tensões entre Trump e a Europa — pode, paradoxalmente, abrir janelas onde antes havia muros.
- O acordo Mercosul-UE, já negociado e documentado pelo Executivo, agora depende de parlamentos em quatro países — e o relógio corre enquanto o Parlamento Europeu encaminhou o tratado à Corte de Justiça.
- Davi Alcolumbre prometeu tornar o acordo a principal agenda do Congresso após o recesso, e aceitou viajar ao Parlamento Europeu para abrir canais de diálogo direto entre legisladores dos dois blocos.
- A narrativa de que o acordo serve apenas ao agronegócio é contestada: 47% do comércio Brasil-UE envolve indústria de transformação, ampliando o leque de setores com interesse direto na aprovação.
- O governo brasileiro aposta em aprovação simultânea com Paraguai, Uruguai e Argentina para enviar ao bloco europeu um sinal unificado e inequívoco de comprometimento.
- As tensões entre Trump e a Europa são vistas como uma oportunidade estratégica: uma União Europeia em busca de alternativas comerciais pode estar mais receptiva ao Mercosul do que em qualquer momento recente.
Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, anunciou na quinta-feira que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, concordou em viajar ao Parlamento Europeu para dialogar sobre o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia. A notícia veio após uma ligação telefônica na noite anterior e foi recebida por Viana como um avanço diplomático concreto — um sinal de que a máquina legislativa brasileira está pronta para se mover.
O presidente Lula já cumpriu o que cabia ao Executivo: o acordo foi negociado, fechado e documentado. O que falta agora é aprovação parlamentar, no Brasil e nos demais países do bloco. Alcolumbre teria prometido fazer do tratado a principal prioridade do Congresso assim que o recesso terminar. Mas no mesmo dia dessa promessa, o Parlamento Europeu encaminhou o acordo à Corte de Justiça — um movimento que pode congelar sua implementação e exige que ambos os lados avancem em paralelo.
Viana também aponta para o contexto geopolítico como fator favorável. As tensões entre Donald Trump e a Europa, na sua avaliação, podem tornar a União Europeia mais receptiva a parcerias comerciais fora da órbita americana — abrindo espaço para que o Mercosul ocupe esse lugar.
Outro ponto que Viana faz questão de sublinhar é a amplitude do acordo: 47% do comércio entre Brasil e UE envolve indústria de transformação, não apenas commodities agrícolas. Manufatura, química e metalurgia têm tanto a ganhar quanto o agronegócio — e esse argumento pode ser decisivo para ampliar a base de apoio parlamentar.
A estratégia brasileira é coordenada: o governo quer que Paraguai, Uruguai e Argentina aprovem o acordo em seus parlamentos de forma simultânea ou próxima, para que o Mercosul fale com uma só voz aos europeus. A viagem de Alcolumbre, se concretizada, será o primeiro teste dessa capacidade de articulação regional.
Jorge Viana, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, saiu de uma conversa telefônica com o presidente do Senado na quarta-feira à noite com o que considera uma vitória diplomática: Davi Alcolumbre concordou em viajar ao Parlamento Europeu para abrir canais de diálogo sobre o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia. Viana anunciou a notícia na quinta-feira em conversa com jornalistas na sede da ApexBrasil, descrevendo a viagem como um passo essencial para destravar negociações que estão agora nas mãos dos legisladores.
O timing é delicado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já cumpriu todas as etapas que cabem ao Poder Executivo. O acordo foi negociado, foi fechado, foi documentado. Agora depende de aprovação legislativa — tanto no Brasil quanto nos demais países do bloco sul-americano. Alcolumbre, segundo Viana, prometeu fazer do acordo a principal agenda do Congresso Nacional assim que terminar o recesso legislativo, sinalizando que a prioridade legislativa será alta.
Mas há complicações. Na quarta-feira, o mesmo dia em que Alcolumbre teria feito essa promessa, o Parlamento Europeu encaminhou o acordo à Corte de Justiça. Esse movimento pode congelar a implementação do tratado, criando uma situação em que ambos os lados precisam agir simultaneamente para que o acordo avance. É por isso que Viana vê a viagem de Alcolumbre como tão importante — ela seria um sinal de que o Brasil está movimentando sua máquina legislativa em paralelo com as movimentações europeias.
Viana também enxerga uma oportunidade nas tensões entre Donald Trump e a Europa. Segundo sua avaliação, o tensionamento provocado pelo presidente dos Estados Unidos nas relações transatlânticas pode criar espaço para que o acordo Mercosul-UE avance mais rapidamente. A lógica é que a Europa, em busca de alternativas comerciais fora da órbita americana, pode estar mais receptiva a fechar negócios com o bloco sul-americano.
Um dos argumentos que Viana reforça é que o acordo não beneficia apenas o agronegócio — uma percepção comum, mas incompleta. Ele aponta que 47% do comércio entre Brasil e União Europeia envolve indústria de transformação, não commodities agrícolas. Isso significa que setores como manufatura, química, metalurgia e outros ramos industriais têm muito a ganhar com a abertura de mercados europeus. O potencial de crescimento econômico é, portanto, muito mais amplo do que frequentemente se discute.
A estratégia do governo brasileiro agora é coordenada e multilateral. Não basta que o Brasil aprove o acordo em seu Congresso. A avaliação entre integrantes da cúpula do governo petista é que todos os países do Mercosul — Paraguai, Uruguai e Argentina — precisam aprovar os termos em seus respectivos parlamentos, e idealmente de forma simultânea ou próxima. Essa sincronização permitiria ao bloco enviar uma mensagem firme aos europeus: estamos todos dentro, estamos todos prontos, agora é com vocês.
O que está em jogo é mais do que um acordo comercial. É a capacidade do Brasil de articular uma posição coerente com seus vizinhos sul-americanos, de manter o Mercosul como um bloco negociador relevante em um momento em que as tensões geopolíticas globais estão reordenando alianças. A viagem de Alcolumbre ao Parlamento Europeu, se acontecer, será um teste dessa capacidade de articulação.
Citações Notáveis
A missão agora é também ajudar na interlocução com os outros parlamentos do Mercosul para aprovar o acordo o quanto antes— Jorge Viana, presidente da ApexBrasil
O tensionamento provocado por Trump nas relações com a Europa pode favorecer o avanço do tratado— Jorge Viana
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a viagem de Alcolumbre ao Parlamento Europeu é tão importante se o acordo já foi negociado?
Porque agora a negociação é política, não técnica. Os europeus precisam ver que o Brasil está movimentando sua máquina legislativa. Se Alcolumbre vai lá e diz que o Senado vai priorizar o acordo, isso muda a percepção de risco na Europa.
E se o Parlamento Europeu congelar o acordo na Corte de Justiça?
Aí é uma corrida. O Brasil precisa aprovar nos parlamentos do Mercosul enquanto isso acontece. Se todos os quatro países aprovarem simultaneamente, fica mais difícil para a Europa recuar.
Viana mencionou Trump. Como as tensões com os EUA ajudam o Brasil?
A Europa está buscando alternativas comerciais fora da órbita americana. Um acordo com o Mercosul vira mais atraente quando os EUA estão sendo impredizíveis. É oportunismo, mas legítimo.
E quanto aos outros setores além do agronegócio?
Esse é o ponto que Viana quer que as pessoas entendam. Indústria de transformação, manufatura — 47% do comércio Brasil-UE já é isso. O acordo abre mercados para muito mais gente do que apenas fazendeiro.
Qual é o risco real aqui?
Que o Mercosul não consiga se coordenar. Se Argentina ou Uruguai não aprovarem, ou aprovarem tarde demais, a janela de oportunidade fecha. A Europa pode perder interesse.