Ser gostosa é um estado de espírito, não um formato de corpo
Câncer de mama afeta jovens sem fatores de risco tradicionais; detecção precoce oferece 95% de chance de cura com novos tratamentos. Letícia criou websérie 'As 7 etapas do Câncer' para preencher lacuna de referências jovens e formar rede de apoio entre pacientes.
- Letícia Prates diagnosticada com câncer de mama aos 25 anos
- 95% dos casos de câncer de mama são curáveis quando detectados no início
- Websérie 'As 7 etapas do Câncer' criada para preencher lacuna de referências jovens
- Passou por quimioterapia, radioterapia, metástase nos ossos e linfonodos
- Aos 33 anos, completamente livre da doença
Letícia Prates foi diagnosticada com câncer de mama aos 25 anos, contrariando estatísticas. Hoje, aos 33 e totalmente curada, ela relata sua jornada em websérie para conscientizar e apoiar jovens com a doença.
Letícia Prates tinha 25 anos quando encontrou uma pequena protuberância em seu seio esquerdo. Ela procurou sua ginecologista, a mesma médica que a acompanhava desde a adolescência, esperando orientação. A resposta que recebeu foi um conselho bem-intencionado, mas equivocado: pare de ser hipocondríaca. A bolinha crescia, porém, e Letícia insistiu. Após muita pressão da paciente, a médica concordou em fazer uma cirurgia para removê-la. Durante o procedimento, o patologista identificou o que ninguém esperava. Em quinze dias, o diagnóstico estava confirmado: carcinoma invasivo grau 2. Ela tinha câncer de mama.
Esse diagnóstico desafiava tudo o que se conhece sobre a doença. O câncer de mama é o segundo mais incidente no Brasil, atrás apenas do câncer de pele. Os fatores de risco tradicionais incluem sobrepeso, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e cigarro, maternidade após os 30 anos, idade avançada. Letícia não se encaixava em nenhum desses perfis. Aos 25 anos, saudável, ela representava uma exceção que desmente a falsa segurança de quem não se vê nos grupos de risco. "Uma em cada dez mulheres tem ou vai ter câncer de mama", ela diria depois. "É muita gente, e a doença está cada vez mais comum entre jovens".
O que veio a seguir foi uma sequência de tratamentos intensos. Quimioterapia, radioterapia, metástase nos ossos e linfonodos. Letícia perdeu os cabelos durante a quimioterapia. Precisou reconstruir a mama após a mastectomia parcial. Mas ela relata ter sentido alívio ao remover o câncer de seu corpo, tão ansiosa estava para se livrar da doença. O impacto estético, embora real, não a paralisou. "Claro que não é o sonho de ninguém perder um pedaço de si na juventude", ela reconhece. "Principalmente a mama para uma mulher. Mas é super possível manter o amor próprio e a autoestima, independentemente do seu corpo físico." Ser atraente, ela acredita, é um estado de espírito, não um formato corporal.
Aos 33 anos, Letícia está completamente livre da doença. Graças aos avanços da ciência e ao Sistema Único de Saúde, ela está, em suas palavras, "zerada". Essa recuperação completa a levou a uma missão: contar sua história de forma que pudesse alcançar outros jovens enfrentando o mesmo caminho. Em 2014, quando recebeu o diagnóstico, ela buscou referências de pessoas jovens com câncer de mama e não encontrou ninguém. Essa lacuna a motivou a criar uma websérie de sete episódios chamada "As 7 etapas do Câncer", disponível em seu perfil no Instagram e no YouTube. O objetivo era duplo: compartilhar sua jornada e formar uma rede de apoio entre jovens pacientes. "Pretendo ser a amiga veterana de guerra que desejei ter quando tive o diagnóstico", explica.
O trabalho ganhou reconhecimento. A Câmara Municipal de São Paulo a convidou para ser protagonista de uma série adaptada chamada "A Caminho da Remissão", parte da campanha Outubro Rosa da casa legislativa. Essa série, em três episódios, foi transmitida nos últimos domingos de outubro no canal da Câmara no YouTube. Nas duas webséries, Letícia não apenas relata sua experiência pessoal, mas fornece informações importantes sobre o câncer de mama para conscientizar a população.
Sua mensagem é clara e baseada em dados: 95% dos casos de câncer de mama são curáveis quando detectados no início. Com os novos tratamentos disponíveis, uma mulher diagnosticada precocemente tem 95% de chance de sobreviver. Letícia enfatiza que o câncer de mama, embora seja uma doença crônica como diabetes ou hipertensão, pode permanecer inativa por muitos anos, permitindo uma vida completamente saudável. Ela própria se tornou mais saudável após o diagnóstico, cuidando melhor da alimentação e praticando exercícios físicos regularmente.
Sua recomendação para outras mulheres é enfática: o autoexame das mamas é importantíssimo porque permite que a pessoa conheça melhor seu próprio corpo e perceba alterações o quanto antes. Mas ele não substitui a mamografia ou ultrassom, que devem ser realizados anualmente. E ela não espera pelos 40 anos para fazer esses exames. Mesmo com histórico familiar de câncer no pai e na mãe, investigação genética confirmou que seu câncer de mama não foi hereditário.
Letícia encerra sua história com uma reflexão sobre identidade e escolha. "Ninguém escolhe onde vai nascer, que cara vai ter, altura, cor dos olhos, nem as cicatrizes que vai ganhar ao longo da vida", ela diz. "A gente escolhe ser bacana ou babaca." Sua cicatriz, sua história, sua essência — tudo isso ela carrega com orgulho. Aos 33 anos, ela é um exemplo de que o câncer de mama não discrimina por idade, que a detecção precoce salva vidas, e que a vida após o diagnóstico pode ser não apenas possível, mas plena.
Citas Notables
Uma em cada dez mulheres tem ou vai ter câncer de mama. É muita gente, e a doença está cada vez mais comum entre jovens.— Letícia Prates
Pretendo ser a amiga veterana de guerra que desejei ter quando tive o diagnóstico e durante o tratamento.— Letícia Prates
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que você acha que sua história é tão importante para outras mulheres jovens?
Porque quando recebi o diagnóstico, procurei desesperadamente por alguém da minha idade que tivesse passado por isso e não encontrei. Aquele silêncio foi assustador. Queria saber se era possível viver depois, se meu corpo ainda seria meu. Ninguém falava sobre isso.
E a médica que disse para você parar de ser hipocondríaca — você acha que ela agiu por negligência ou por falta de conhecimento?
Acho que foi falta de conhecimento mesmo. Câncer de mama em mulher de 25 anos é raro, então ela não esperava. Mas isso é exatamente o problema. A gente precisa parar de achar que câncer tem idade certa.
Como foi lidar com a perda da mama tão jovem?
No momento, eu estava tão ansiosa para tirar o câncer de mim que senti alívio. Mas depois, claro, veio a reflexão. Você perde um pedaço de si. Mas descobri que a gente é muito mais do que o corpo. Minha essência continuava intacta.
Você menciona que é mais saudável agora do que antes do câncer. Como isso é possível?
O câncer me obrigou a repensar tudo. Comecei a cuidar da alimentação, a fazer exercícios regularmente. Virou uma prioridade. Antes, eu era jovem e achava que era invencível. Agora sei que saúde é um presente que a gente tem que cultivar.
A websérie surgiu de uma necessidade pessoal sua, certo?
Exatamente. Eu queria ser para outras meninas o que ninguém foi para mim. Uma voz que dissesse: você vai sair do outro lado disso. Você vai viver. E você vai viver bem.
Qual é a mensagem mais importante que você quer que as pessoas levem?
Que ninguém está imune. Que detecção precoce muda tudo. E que a vida depois do câncer não é o fim — é uma chance de começar de novo, mas melhor.