Etanol só era vantajoso onde custava menos de 70% da gasolina
Em maio de 2021, o Brasil revelava, por meio dos dados da ANP, uma fratura silenciosa no mercado de combustíveis: apenas Mato Grosso oferecia ao motorista uma razão econômica concreta para escolher o etanol, com o biocombustível custando 69,17% do preço da gasolina — abaixo do limiar técnico de 70% que define a vantagem real. No restante do país, onde a média nacional chegava a 76,40%, o etanol havia deixado de ser alternativa econômica para se tornar, paradoxalmente, a opção mais cara por quilômetro rodado. A geografia da produção, e não apenas a política de preços, ditava quem podia escolher com liberdade e quem escolhia por falta de opção.
- A regra técnica é implacável: etanol só compensa quando custa menos de 70% da gasolina, e em quase todo o Brasil esse limite foi ultrapassado.
- Com paridade nacional de 76,40%, o biocombustível que deveria ser alternativa sustentável e econômica tornou-se a escolha mais cara para a maioria dos brasileiros.
- Mato Grosso escapa da armadilha por estar próximo das usinas produtoras, enquanto regiões distantes pagam o preço invisível do transporte e da distribuição.
- Consumidores em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais enfrentavam, naquela semana, uma matemática desfavorável: abastecer com etanol era pagar mais por menos energia.
- O mercado de combustíveis brasileiro expõe sua desigualdade estrutural — a liberdade de escolha racional pertence apenas a quem vive perto da fonte.
Em maio de 2021, os dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis confirmavam o que muitos motoristas já sentiam no bolso: o etanol havia perdido sua vantagem competitiva em quase todo o Brasil. O levantamento, compilado pela AE-Taxas, partia de uma premissa técnica objetiva — como o biocombustível possui menor poder calorífico que a gasolina, ele só representa economia real quando custa no máximo 70% do preço do derivado de petróleo.
Apenas Mato Grosso ficava abaixo desse limite, com o etanol atingindo 69,17% da cotação da gasolina. A margem era estreita, mas suficiente para que os motoristas daquele estado pudessem abastecer com vantagem real. No restante do país, a média nacional de 76,40% contava outra história: mais de seis pontos percentuais acima do patamar de competitividade, tornando o etanol uma opção economicamente desfavorável de norte a sul.
A explicação estava na geografia. Mato Grosso, grande produtor de cana-de-açúcar e milho, desfruta da proximidade com as usinas e de maior oferta local. Regiões distantes dos polos produtores acumulam custos de transporte e distribuição que corroem progressivamente qualquer vantagem do biocombustível. Para consumidores em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a gasolina era, naquela semana, a escolha racional — e o etanol permanecia nas bombas como opção secundária, sustentado por preferências que iam além da matemática do preço.
Na semana de maio de 2021, apenas um estado do Brasil oferecia ao consumidor uma razão econômica clara para escolher etanol em vez de gasolina. Os dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis mostravam Mato Grosso como a única região onde o biocombustível apresentava preço competitivo — uma situação que refletia a realidade desigual do mercado de combustíveis no país.
O levantamento, compilado pela agência de notícias AE-Taxas, partia de uma premissa técnica simples: como o etanol de cana ou de milho possui menor poder calorífico que a gasolina, ele só se torna uma compra inteligente quando custa no máximo 70% do preço do derivado de petróleo. Abaixo desse patamar, o consumidor economiza. Acima dele, paga mais caro por menos energia.
Em Mato Grosso, o etanol atingia exatamente 69,17% da cotação da gasolina — uma décima de ponto percentual abaixo do limite que o tornava vantajoso. Era margem apertada, mas suficiente. Motoristas naquele estado poderiam abastecer com etanol e sair ganhando na conta.
O resto do país enfrentava realidade diversa. Na média dos postos pesquisados nacionalmente, o etanol alcançava 76,40% do preço da gasolina — mais de seis pontos percentuais acima do patamar de competitividade. Isso significava que em praticamente todas as outras regiões, escolher etanol era escolher pagar mais caro por menos rendimento. O biocombustível, que deveria ser uma alternativa econômica e sustentável, havia se tornado um luxo em quase todo o território nacional.
A disparidade revelava as fraturas do mercado brasileiro de combustíveis. Mato Grosso, grande produtor de cana-de-açúcar e milho, desfrutava de vantagem de proximidade com as usinas e da maior oferta local. Outras regiões, distantes dos polos produtores, arcavam com custos de transporte e distribuição que tornavam o etanol progressivamente menos atrativo conforme se afastavam do centro-sul.
Para consumidores em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e demais estados, a mensagem era clara: naquela semana, a gasolina era a escolha racional. O etanol permanecia nas bombas, mas como opção secundária, dependente de preferências que iam além da matemática do preço — lealdade a marcas, disponibilidade, ou simplesmente falta de alternativa.
Citações Notáveis
O etanol de cana ou de milho, por ter menor poder calorífico, precisa custar no máximo 70% da gasolina para ser considerado vantajoso— Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que apenas Mato Grosso consegue oferecer etanol competitivo?
A proximidade com as usinas produtoras reduz drasticamente os custos de transporte e distribuição. Em estados distantes, esses custos se acumulam até tornar o etanol mais caro que a gasolina.
Esse limite de 70% — como foi definido?
Vem da física do combustível. O etanol tem menor poder calorífico, então precisa render 30% menos para justificar o mesmo preço. Acima de 70%, você está pagando mais por menos energia.
E o que isso significa para a indústria do etanol?
Significa que fora de Mato Grosso, o biocombustível perde competitividade de mercado. Consumidores racionais escolhem gasolina. A demanda cai onde mais importa — nos grandes centros urbanos.
Isso é um problema estrutural ou conjuntural?
Estrutural. Enquanto a produção estiver concentrada no centro-sul e a distribuição for cara, regiões distantes sempre pagarão mais. Seria preciso investimento em infraestrutura ou descentralização da produção para mudar isso.
Qual é o risco para o setor?
Se o etanol fica caro demais em relação à gasolina, consumidores migram. A demanda enfraquece, usinas operam abaixo da capacidade, e o setor perde receita. É um ciclo que se alimenta.