Ameba 'comedora de cérebros' se expande pelo mundo com surto recorde na Índia

Criança de 11 anos morreu em 2014 após nadar em fonte natural na Costa Rica; criança de 9 anos morreu em Rondônia em 2025; mais de 200 pessoas infectadas na Índia com taxa de mortalidade historicamente de 97%.
Ela leva seu cérebro embora, retira seus pensamentos
Steve Smelski descrevendo o que a ameba fez com seu filho Jordan, que morreu aos 11 anos.

A ameba entra pelas narinas durante atividades aquáticas e causa meningoencefalite amebiana com taxa histórica de 97% de mortalidade. Mudanças climáticas aquecendo águas permitem que o organismo se desenvolva em regiões antes muito frias, como Minnesota e Eslováquia.

  • Surto recorde de 200+ casos na Índia em 2025, comparado a 488 casos globais entre 1962-2023
  • Taxa histórica de mortalidade de 97%, reduzida para 50% em Kerala com diagnóstico precoce
  • Ameba detectada em Minnesota, Eslováquia, Itália e Bélgica — regiões antes muito frias
  • Jordan Smelski morreu 7,5 dias após nadar em fonte natural na Costa Rica em 2014
  • Criança de 9 anos morreu em Rondônia em abril de 2025

A Naegleria fowleri, ameba fatal que ataca o cérebro, está se espalhando para regiões mais frias devido ao aquecimento global. Após surto recorde na Índia com 200+ casos, especialistas alertam para aumento de infecções em novos locais.

Steve Smelski estava na unidade de terapia intensiva quando seu filho Jordan morreu. O menino tinha 11 anos. Sete dias e meio antes, durante uma viagem em família à Costa Rica, Jordan havia nadado em uma fonte natural de águas quentes perto do hotel. Começou com dor de cabeça. Depois vieram as alucinações — insetos rastejando pelo teto, disse ele aos pais. Quando chegou ao hospital, Jordan não reconhecia mais quem eram suas mães. Os médicos demoraram para descobrir a causa. Quando finalmente identificaram a Naegleria fowleri, a ameba já havia inflamado gravemente seu cérebro. "Ela leva seu cérebro embora, retira seus pensamentos, você deixa de ser quem é", disse Smelski anos depois, aos 67 anos, em entrevista à BBC.

A história de Jordan não é isolada. Entre 1962 e 2023, foram registrados 488 casos dessa infecção em todo o mundo, com uma taxa de mortalidade de cerca de 97%. A ameba, conhecida como comedora de cérebros, entra no corpo pelas narinas quando as pessoas mergulham em água — especialmente em lagos, fontes termais e piscinas abandonadas. Uma vez dentro, ela ataca rapidamente o tecido cerebral, causando uma inflamação chamada meningoencefalite amebiana primária. Os sintomas iniciais podem parecer meningite comum, o que frequentemente leva a diagnósticos tardios.

Mas algo mudou nos últimos anos. No ano passado, a Índia registrou mais de 200 casos de infecção por Naegleria fowleri — o maior surto já documentado em qualquer lugar do mundo. Novos casos continuam surgindo no país. Antes disso, menos de 500 casos haviam sido identificados globalmente em seis décadas. Os pesquisadores estão preocupados. O organismo microscópico está aparecendo em locais onde raramente era observado. Em abril deste ano, uma criança de nove anos morreu em Rondônia, no Brasil, com a infecção. Casos também foram confirmados na Eslováquia, na Itália e na Bélgica — regiões onde a ameba não era esperada.

O culpado provável é o aquecimento global. Com as mudanças climáticas elevando as temperaturas da água em lagos e tanques, a ameba começa a se expandir para regiões onde antes era muito frio para ela se desenvolver. "Quando a água se aquece, a ameba fica mais ativa", explica Anastasios Tsaousis, parasitologista molecular da Universidade de Kent. "Com isso, aumenta a possibilidade de infecção das pessoas durante atividades recreativas." Nos últimos 20 anos, foi detectada uma proporção maior de casos em países do hemisfério norte. Minnesota, um Estado tradicionalmente frio nos Estados Unidos, registrou infecções. Taiwan teve um caso em 2023 após exposição em um local fechado de surfe. Nos Estados Unidos, uma criança contraiu a infecção fatal após usar um tapete de água contaminado.

As crianças correm risco particularmente alto. Especialistas indicam que elas têm maior probabilidade de serem infectadas do que adultos, possivelmente porque a ameba consegue atravessar a barreira entre o nariz e o cérebro com maior facilidade em pessoas mais jovens. "A idade em que mais pessoas sofrem da doença é aos 12 anos, pois as crianças adoram esguichar água quente", diz Ian Wright, especialista em ciências da água da Universidade do Oeste de Sydney. "É muito cruel."

Há, porém, uma nota de esperança que desafia décadas de prognósticos sombrios. O surto recente em Kerala, um Estado no sul da Índia, mostrou algo inesperado: mais da metade das 200 pessoas contaminadas sobreviveram. Isso está muito acima do índice histórico de sobrevivência de cerca de 3%. Pesquisadores acreditam que o diagnóstico precoce, maior conhecimento dos médicos e protocolos de tratamento mais consistentes contribuíram para esses resultados melhores. Quando tratada no estágio inicial com uma combinação de medicações e medidas para reduzir o inchaço cerebral, a infecção pode ser sobrevivida — algo que parecia praticamente impossível até pouco tempo atrás.

Tsaousis também levanta outra possibilidade: talvez os números de infecções sempre tenham sido altos, mas os cientistas estão começando a detectar melhor a ameba agora. "Minha hipótese é que os números podem ter sido sempre altos e, agora, estamos simplesmente percebendo o aumento destes casos porque sabemos como fazer o teste", explica ele. Ainda assim, ele alerta que não há motivo para pânico, mas as pessoas devem estar "atentas" ao aumento do risco.

Prevenir a infecção é possível com medidas simples. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos recomendam usar água destilada, esterilizada ou previamente fervida e resfriada para irrigação nasal — a água da torneira contaminada já foi relacionada a casos raros. Ao nadar em água doce quente, é aconselhável segurar o nariz ou usar um clipe nasal ao mergulhar. "Na dúvida, simplesmente não coloque sua cabeça dentro da água", aconselha Wright. O risco de infecção permanece naturalmente muito pequeno, mas com o organismo se expandindo para novos territórios, a vigilância se torna cada vez mais importante.

Quando a água se aquece, a ameba fica mais ativa. Com isso, aumenta a possibilidade de infecção das pessoas durante atividades recreativas.
— Anastasios Tsaousis, parasitologista molecular da Universidade de Kent
A idade em que mais pessoas sofrem da doença é aos 12 anos, pois as crianças adoram esguichar água quente. É muito cruel.
— Ian Wright, especialista em ciências da água da Universidade do Oeste de Sydney
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que essa ameba está aparecendo agora em lugares onde nunca tinha sido vista antes?

Model

A água está ficando mais quente. Quando você aquece um lago ou uma fonte que antes era fria demais para a ameba sobreviver, de repente ela consegue se desenvolver ali. É como abrir uma porta que estava fechada.

Inventor

Mas 200 casos em um ano na Índia — isso é realmente um surto novo, ou estamos apenas detectando melhor?

Model

Provavelmente os dois. Sim, estamos melhores em encontrar a ameba agora. Mas também é verdade que ela está em mais lugares. O aquecimento é real. Minnesota nunca tinha visto isso antes.

Inventor

O que torna as crianças tão vulneráveis?

Model

Elas brincam na água de um jeito que os adultos não fazem. Esguicham água, mergulham a cabeça, não têm o mesmo cuidado. E biologicamente, a barreira entre o nariz e o cérebro pode ser mais frágil quando você é jovem.

Inventor

A história de Jordan Smelski — sete dias entre nadar e morrer. Isso é sempre assim?

Model

Sim, é rápido demais. Os pais levam para o hospital achando que é meningite comum. Os médicos não pensam em ameba no começo. Quando descobrem, o cérebro já está muito inflamado. É por isso que o diagnóstico precoce muda tudo.

Inventor

Mas em Kerala, metade das pessoas sobreviveu. Como isso muda o que sabemos?

Model

Muda tudo. Durante 60 anos, a gente achava que essa infecção era praticamente uma sentença de morte. Kerala mostrou que com o tratamento certo, no tempo certo, você pode viver. Não é garantido, mas não é impossível.

Inventor

Então as pessoas deveriam ter medo de nadar?

Model

Não. O risco é muito pequeno. Mas você deveria ser inteligente. Não coloque a cabeça embaixo da água em fontes termais. Use água destilada se fizer irrigação nasal. Não é paranoia — é apenas bom senso agora.

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