Ela leva seu cérebro embora, retira seus pensamentos
A ameba entra pelas narinas durante atividades aquáticas e causa meningoencefalite amebiana primária, com taxa histórica de mortalidade de 97%. Mudanças climáticas aquecendo lagos e tanques permitem que a ameba se desenvolva em regiões antes muito frias, incluindo norte dos EUA e Europa.
- Mais de 200 casos registrados na Índia em 2025, o maior surto documentado
- Taxa histórica de mortalidade de 97%, mas surto em Kerala mostrou sobrevivência acima de 50%
- Ameba detectada em regiões antes muito frias: norte dos EUA, Europa, Eslováquia
- Criança de 11 anos morreu na Costa Rica; criança de 9 anos em Rondônia
A Naegleria fowleri, ameba letal que ataca o cérebro, está se expandindo para novas regiões devido ao aquecimento global. Um surto na Índia com 200 casos desafia conhecimentos anteriores sobre a mortalidade da doença.
Steve Smelski estava na unidade de terapia intensiva quando seu filho Jordan morreu. O menino tinha 11 anos. Dias antes, a família havia passado férias na Costa Rica, em uma fonte natural de águas quentes perto do hotel. Jordan entrou na água uma única vez. Sete dias e meio depois, ele se foi.
Jordan foi vítima da Naegleria fowleri, um organismo microscópico encontrado em lagos, fontes termais e piscinas abandonadas. A ameba entra no corpo pelas narinas quando as pessoas mergulham ou pulam na água e começa a atacar rapidamente o tecido cerebral. No caso de Jordan, os primeiros sintomas foram dores de cabeça. Depois vieram os vômitos. Quando chegou ao hospital, começou a sofrer alucinações, vendo insetos rastejando pelo teto. "Ele olhava para nós, mas não sabia quem nós éramos", lembra Smelski. "Acho que ele não sabia quem ele próprio era." Uma convulsão o levou à UTI, onde morreria de meningoencefalite amebiana primária — inflamação grave do cérebro causada pela ameba. "Ela leva seu cérebro embora, retira seus pensamentos, você deixa de ser quem é", diz o pai.
O caso de Jordan não é isolado. Entre 1962 e 2023, foram relatados 488 casos em todo o mundo, com uma taxa de mortalidade de cerca de 97%. A maioria ocorreu no sul dos Estados Unidos, no Paquistão e na Austrália. Mas algo está mudando. No ano passado, a Índia registrou mais de 200 casos — o maior surto já documentado. Novos casos continuam surgindo. Em abril, uma criança de nove anos morreu em Rondônia com a mesma infecção. Nos últimos 20 anos, pesquisadores detectaram uma proporção crescente de infecções em países do hemisfério norte, incluindo Itália e Bélgica. A Eslováquia registrou seu primeiro caso confirmado. Em Taiwan, um homem morreu em 2023 após exposição em um local fechado de surfe. Nos Estados Unidos, uma criança contraiu a infecção fatal usando um tapete de água contaminado.
Os cientistas apontam as mudanças climáticas como o fator principal dessa expansão. Quando a água se aquece, a ameba fica mais ativa e consegue se desenvolver em regiões onde antes era muito frio para sua sobrevivência. "Com isso, aumenta a possibilidade de infecção das pessoas durante atividades recreativas", explica Anastasios Tsaousis, parasitologista molecular da Universidade de Kent. Ele acredita que haverá mais casos no futuro, observados em todo o mundo. Mas Tsaousis também levanta outra possibilidade: os cientistas estão começando a detectar melhor a ameba. "Minha hipótese é que os números podem ter sido sempre altos e, agora, estamos simplesmente percebendo o aumento destes casos porque sabemos como fazer o teste."
As crianças correm risco particularmente alto. Especialistas indicam que elas têm maior probabilidade de serem infectadas que os adultos, em parte porque adoram brincar com água quente e em parte porque a ameba conseguiria atravessar a barreira entre o nariz e o cérebro das pessoas mais jovens com maior facilidade. "A idade em que mais pessoas sofrem da doença ao contraírem a infecção é aos 12 anos", diz Ian Wright, especialista em ciências da água da Universidade do Oeste de Sydney. "É muito cruel."
Historicamente, o índice de sobrevivência foi extremamente baixo — cerca de 3%. Mas o surto recente em Kerala, no sul da Índia, desafiou esse conhecimento. Ali, mais da metade das 200 pessoas contaminadas sobreviveram. Pesquisadores acreditam que o diagnóstico precoce, maior conhecimento dos médicos e protocolos de tratamento mais consistentes contribuíram para esses resultados melhores. Quando detectada no estágio inicial, a infecção pode ser tratada com uma combinação de medicações e medidas para reduzir o inchaço do cérebro.
A ameba não entra apenas durante atividades aquáticas. Ela também pode penetrar o corpo através de sistemas de irrigação nasal — frascos de bico longo usados para combater resfriados, infecções dos seios nasais e alergias. No ano passado, uma mulher de 71 anos morreu no Texas após duas semanas usando um desses sistemas abastecido com água da torneira de um trailer. A higienização nasal também faz parte de práticas religiosas e holísticas, como o islamismo e o ayurveda.
Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos recomendam medidas simples: usar água destilada, esterilizada ou previamente fervida e resfriada para irrigação nasal. Ao nadar em água doce quente, é possível reduzir o risco segurando o nariz ou usando um clipe nasal ao mergulhar. "Na dúvida, simplesmente não coloque sua cabeça dentro da água", aconselha Wright. O risco absoluto permanece pequeno, mas com o aquecimento global expandindo os habitats onde a ameba prospera, a vigilância se torna cada vez mais importante.
Citações Notáveis
Jordan nadou um dia, uma vez, e, agora, ele se foi— Steve Smelski, pai de vítima
Quando a água se aquece, a ameba fica mais ativa. Com isso, aumenta a possibilidade de infecção das pessoas durante atividades recreativas— Anastasios Tsaousis, parasitologista molecular
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que essa ameba está aparecendo em lugares onde nunca havia sido vista antes?
As mudanças climáticas estão aquecendo lagos e tanques de água. A ameba precisa de calor para se desenvolver e ficar ativa. Regiões que eram muito frias — como o norte dos Estados Unidos e a Europa — agora têm temperaturas que permitem sua sobrevivência.
Mas o surto na Índia teve uma taxa de sobrevivência muito mais alta que o histórico. O que mudou?
Três coisas provavelmente: diagnóstico mais rápido, médicos melhor informados sobre a doença e protocolos de tratamento mais consistentes. Quando detectada cedo, há chance de tratar com medicações e reduzir o inchaço do cérebro.
Por que as crianças são tão vulneráveis?
Elas brincam mais com água quente e sua barreira entre o nariz e o cérebro ainda está em desenvolvimento. A ameba consegue atravessá-la com mais facilidade. A maioria dos casos graves ocorre por volta dos 12 anos.
A ameba só entra pela água durante o lazer?
Não. Ela também entra através de sistemas de irrigação nasal — aqueles frascos que as pessoas usam para limpar as narinas quando têm resfriado ou alergia. Se a água não for destilada ou fervida, o risco existe.
Então o pânico é justificado?
Não. O risco absoluto continua muito pequeno. Mas com a ameba se expandindo para novos territórios, a vigilância é essencial. As pessoas precisam estar atentas, não assustadas.