Trocar títulos de um banco em dificuldades por créditos contra o Estado
Ambipar carregava R$ 700 milhões em CDBs do Master até setembro, mesmo mês em que BC rejeitou proposta de aquisição do banco pelo BRB. Os CDBs foram substituídos por pré-precatórios federais avaliados em R$ 1,2 bilhão; empresa também tinha R$ 247 milhões em instituição em liquidação.
- R$ 700 milhões em CDBs do Banco Master até setembro de 2025
- CDBs substituídos por pré-precatórios federais de R$ 1,2 bilhão
- R$ 247 milhões em instituição financeira em liquidação
- Caixa total de R$ 2,5 bilhões ao final de 2025
- Participação de 23% na Emae vendida no segundo trimestre de 2026
Ambipar revelou ter R$ 700 milhões em CDBs do Banco Master dois meses antes de sua liquidação em novembro, posteriormente trocados por pré-precatórios federais. A empresa em recuperação judicial não comentou sobre os investimentos.
Dois meses antes do Banco Master entrar em liquidação, em novembro, a Ambipar mantinha aproximadamente R$ 700 milhões em certificados de depósito bancário da instituição. A revelação veio em documento divulgado pela empresa de gestão ambiental na quinta-feira, 9 de julho, marcando a primeira vez que números detalhados sobre sua posição de caixa se tornaram públicos. Até então, essas informações haviam permanecido sob sigilo, entregues apenas à Justiça do Rio de Janeiro como parte do pedido de recuperação judicial da companhia.
Em setembro, o mesmo mês em que o Banco Central rejeitou a tentativa do Banco de Brasília de adquirir o Master, a Ambipar ainda carregava cotas de um fundo composto inteiramente por CDBs de instituições financeiras. Mas a empresa não comentou sobre a estratégia por trás desses investimentos ou sobre o timing de suas movimentações. O silêncio é notável: uma companhia em dificuldades financeiras que havia concentrado uma parcela significativa de seus recursos em títulos de uma instituição que se aproximava do colapso.
O que aconteceu depois revela uma mudança de rumo. Os CDBs do Master foram posteriormente substituídos por pré-precatórios federais — basicamente, direitos sobre pagamentos futuros do governo. Conforme documentos da própria Ambipar, esses pré-precatórios somavam R$ 1,2 bilhão em valor de face tanto em setembro quanto em dezembro de 2025. Essa transformação de ativos representa uma aposta diferente: trocar títulos de um banco em dificuldades por créditos contra o Estado.
Além dessa realocação, o documento revela outras exposições preocupantes. A Ambipar tinha R$ 247 milhões investidos em uma instituição financeira em processo de liquidação, sem especificar qual. Também mantinha mais de R$ 500 milhões em ações da Empresa Metropolitana de Água e Energia, a Emae, o que lhe dava uma fatia de 23% do capital social da companhia. Durante o segundo trimestre de 2026, a Ambipar negociou essa participação e informou não ter mais qualquer investimento na Emae.
Os números de caixa flutuaram consideravelmente ao longo do período. Em setembro, a empresa tinha R$ 387,9 milhões em recursos líquidos e R$ 227,3 milhões em bancos de primeira linha. Em dezembro, essas posições caíram para R$ 250,8 milhões e R$ 44,4 milhões, respectivamente, totalizando R$ 295,1 milhões. Em fevereiro de 2026, a posição em caixa entre bancos de primeira linha havia subido para R$ 280,1 milhões. A Ambipar projeta que esse número chegue a R$ 468 milhões ao final do ano.
A empresa encerrou 2025 com caixa total de R$ 2,5 bilhões, segundo suas próprias informações. Mas é importante notar que esses números não foram auditados. Eles emergiram do sigilo apenas porque a Ambipar entrou em recuperação judicial, obrigando a divulgação de seus dados financeiros. O Banco Central já pediu para participar do processo de recuperação, enquanto grupos de bancos — incluindo o Santander — tentam se posicionar nos EUA para influenciar o plano de reestruturação da companhia. A história de como a Ambipar chegou a esse ponto, e para onde vai agora, ainda está sendo escrita nos tribunais.
Notable Quotes
Procurada, a Ambipar optou por não comentar— Ambipar
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que uma empresa de gestão ambiental tinha tanto dinheiro em CDBs de um banco que estava claramente em risco?
Essa é a pergunta que ninguém está respondendo. Pode ter sido uma decisão de investimento de curto prazo, buscando retorno. Ou pode ter havido relacionamento comercial entre as empresas. O silêncio da Ambipar sugere que a resposta não é simples.
E quando o Banco Central rejeitou a compra pelo BRB em setembro, a Ambipar não viu o sinal de alerta?
Aparentemente não — ou não agiu rápido o suficiente. Os CDBs só foram substituídos depois, quando o Master já estava à beira do colapso. Dois meses é tempo suficiente para se mover, se você estivesse atento.
Os pré-precatórios federais são mais seguros?
Teoricamente, sim. São direitos contra o governo, não contra um banco privado. Mas R$ 1,2 bilhão em créditos contra o Estado é uma aposta de longo prazo. Você está trocando liquidez por esperança de que o governo pague.
Por que a Emae? Por que comprar 23% de uma empresa de água e energia?
Talvez tenha sido uma oportunidade de diversificação, ou talvez houvesse uma estratégia de negócio ali. Mas vender tudo no segundo trimestre de 2026 sugere que a Ambipar precisava de caixa. Quando você está em recuperação judicial, você vende o que pode.
O que esses números dizem sobre o estado real da empresa?
Que ela está movendo peças no tabuleiro, tentando sobreviver. Caixa flutuando, ativos sendo vendidos, investimentos sendo realocados. Não é o retrato de uma empresa estável. É o retrato de uma empresa em crise que está tentando se reorganizar antes que seja tarde demais.