Rios assassinados: Tietê e Pinheiros como metáfora da morte ambiental

Povos indígenas do Xingu foram impactados pelo assassinato ambiental premeditado da Volta Grande, afetando suas tradições, subsistência e territórios ancestrais.
Se um rio consegue transmutar-se de cloaca em piscoso, a ditadura podia acabar
Reflexão sobre a capacidade de ressurreição dos rios como metáfora para transformação social e esperança.

Há uma pergunta que a infância responde com naturalidade e a vida adulta insiste em complicar: os rios estão vivos? No Brasil do século 20, crescer às margens do Tietê e do Pinheiros era aprender a resposta pela ausência — rios que foram assassinados ensinam, por contraste, o que significa estar vivo. Da Volta Grande do Xingu, deliberadamente seca pela mão humana, ao Sucuri cristalino de Bonito, o colunista percorre décadas e continentes para concluir que a morte dos rios não é fatalidade, mas cumplicidade coletiva — e que a ressurreição, embora possível, exige primeiro o reconhecimento do crime.

  • O Tietê e o Pinheiros tornaram-se esgotos a céu aberto nas marginais de São Paulo, transformando a memória de competições de natação e remo em algo quase inacreditável para quem cresceu cheirando aquela água morta.
  • A Volta Grande do Xingu foi esvaziada de forma premeditada pela Norte Energia e pela mineração da Belo Sun, consumando um assassinato ambiental que destruiu territórios ancestrais e a subsistência de povos indígenas.
  • A cumplicidade não é apenas dos grandes agentes econômicos: o colunista aponta que todos — leitores, cidadãos, consumidores — compartilham responsabilidade no genocídio silencioso dos cursos d'água brasileiros.
  • Ainda assim, o Tietê reencontrado no interior paulista, piscoso e vivo a mais de 500 quilômetros da capital, sugere que rios podem ressuscitar — desde que a sociedade aceite primeiro que foi ela quem os matou.

Robert Macfarlane precisou de centenas de páginas para explorar se um rio pode estar vivo; seu filho de nove anos já sabia a resposta. Quem cresceu em São Paulo na segunda metade do século 20 chegou à mesma conclusão pelo caminho inverso: se o Tietê e o Pinheiros estão mortos, é porque um dia estiveram vivos — e foram assassinados. Passar pela marginal rumo a Ubatuba na infância era cruzar por um esgoto fedorento onde o avô jurava ter nadado décadas antes. Crescer ao lado de um rio morto é uma educação sentimental particular, agravada pela mitologia mentirosa do bandeirante paulista, tão falsa quanto genocida.

Mais velho, veio a descoberta de que rios também ressuscitam. Reencontrar o Tietê numa fazenda em Araçatuba, saindo para pescar, foi perceber que a impermanência de que falava Heráclito vale para o bem e para o mal: se um rio consegue transmutar-se de cloaca em piscoso, talvez ditaduras também acabem, mesmo quando o desespero parece eterno.

Outros rios foram se acumulando na memória — o São Francisco, o Negro, o Solimões, o Tejo, o Tâmisa, o Arno, o Sucuri. E o Xingu, visitado primeiro em 2009 numa aldeia icpengue, e depois em 2013, quando uma reportagem sobre Belo Monte impôs testemunhar o assassinato de um caudal mítico para os povos indígenas e para os Villas-Bôas, que tentavam salvá-los confinando-os no Parque Indígena.

Documentar a Volta Grande do Xingu por terra, água e ar ao lado do fotógrafo Lalo de Almeida foi uma das maiores realizações profissionais do colunista. Hoje, aquela volta está seca — um assassinato premeditado e consumado em nome da hidreletricidade ineficiente e da mineração de ouro. Os rios estão vivos, sim, até serem mortos. E somos todos cúmplices.

Um rio pode estar vivo? Robert Macfarlane precisou de 374 páginas para explorar essa pergunta em seu livro de 2025, mas seu filho de nove anos, Will, já tinha a resposta pronta: claro que sim. Só que não é bem assim. Os adultos precisam de argumentos longos para aceitar o que deveria ser óbvio.

Macfarlane observa que crianças pequenas habitam naturalmente um mundo onde árvores falam, rios cantam e montanhas pensam. Houve um tempo em que a maioria de nós sentia que os rios estavam realmente vivos. Quem nasceu em São Paulo na segunda metade do século 20 concordaria com Will e com seu pai, ainda que pela experiência inversa: se rios podem estar mortos, como o Tietê e o Pinheiros, é porque já estiveram vivos. E foram assassinados.

Passar pela marginal a caminho de Ubatuba, na infância, significava passar pelo Clube de Regatas Tietê. Era impossível imaginar competições de remo naquele esgoto fedorento. Menos ainda acreditar no avô quando dizia que tinha participado de competições de natação ali, décadas antes. Crescer na presença de um rio morto é difícil, especialmente quando ele encarnava a mitologia do bandeirante paulista, tão falsa quanto genocida. Na fabulação, paulistas empreendedores saíam em batelões atrás de ouro e pedras preciosas. Na realidade, eram escravizadores de indígenas, uma história tão desencontrada quanto um rio que corre para o interior nascendo tão perto do mar.

Mais velho, veio a descoberta de que um rio, além de estar vivo ou morto, pode ressuscitar. Ao reencontrar o Tietê na fazenda Anhangaí, em Araçatuba, a mais de 500 quilômetros da capital, saindo para pescar, percebeu-se que não era nem mesmo o mesmo rio. Heráclito de Éfeso disse que não é possível banhar-se duas vezes no mesmo rio. Um corpo d'água que flui serve de metáfora para a impermanência de tudo. Para o bem e para o mal: se um rio consegue transmutar-se de cloaca em piscoso, a ditadura podia acabar, mesmo que o desespero fosse moda em 1973.

Outros rios foram passando. O Paraíba em Tremembé. O São Francisco de Bom Jesus da Lapa a Juazeiro. A Portela no Rio. O Tejo em Lisboa. O Tâmisa em Londres. O Negro e o Solimões em Manaus. O Arno em Florença. O Spree em Berlim. O Sucuri em Bonito. Até o Xingu, na aldeia icpengue Moigu em 2009, para escrever sobre a nascente Rede de Sementes. Depois em Altamira em 2013, quando uma reportagem multimídia chamada A batalha de Belo Monte impôs testemunhar o assassinato desse caudal mítico para povos indígenas e para os antibandeirantes Villas-Bôas, que tentavam salvá-los por confinamento no Parque Indígena do Xingu.

Documentar a Volta Grande do Xingu por terra, água e ar, na companhia de Lalo de Almeida, só se compara em realização profissional com estar na Antártida, em Patriot Hills, ou no Ártico, em Svalbard, onde reinam as titânicas torrentes de gelo dos glaciares. A Volta Grande secou. Um assassinato premeditado e consumado em nome da hidreletricidade ineficiente da Norte Energia e da mineração de ouro da Belo Sun. Os rios estão vivos, sim, até serem mortos. Somos todos cúmplices no genocídio.

Crianças pequenas habitam instintivamente um mundo repleto de árvores falantes, rios canoros e montanhas pensativas
— Robert Macfarlane, em 'Is a River Alive?' (2025)
A Volta Grande secou. Um assassinato premeditado e consumado em nome da hidreletricidade ineficiente da Norte Energia e da mineração de ouro da Belo Sun
— Colunista
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que você escolheu começar com a pergunta de Macfarlane sobre se um rio pode estar vivo?

Model

Porque ela é a questão central. Não é biologia. É sobre como reconhecemos a vida em torno de nós e quando paramos de reconhecer.

Inventor

E a resposta do filho dele, tão simples, contrasta com a experiência do Tietê.

Model

Exatamente. Uma criança vê um rio e sente que está vivo. Um paulista crescido vê o Tietê e sente que está morto. A diferença entre essas duas visões é tudo.

Inventor

Você menciona o avô nadando no Tietê décadas antes. Por que esse detalhe importa?

Model

Porque prova que houve um tempo em que era possível. Não é ficção. Não é lenda. É memória viva de uma transformação. O rio não nasceu morto.

Inventor

A referência a Heráclito parece crucial também.

Model

Sim. Ele nos diz que nada permanece igual. Um rio que flui é a própria impermanência. Então se um rio pode morrer, também pode viver novamente. Mas exige que a gente reconheça que o matamos.

Inventor

E o Xingu? Por que dedicar tanto espaço a ele?

Model

Porque é o exemplo mais claro de assassinato premeditado. Não foi negligência. Foi escolha. Norte Energia e Belo Sun mataram aquele rio sabendo exatamente o que estavam fazendo.

Inventor

Você termina dizendo que somos todos cúmplices. Isso não é um pouco duro?

Model

Talvez. Mas é verdade. Enquanto usamos a energia, enquanto consumimos o ouro, enquanto passamos pelas marginais sem ver, somos cúmplices. Não há inocência nessa história.

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