A Ucrânia não é apenas vítima, mas pode ter vantagem estratégica
Quatro anos após o início de uma das guerras mais devastadoras da Europa contemporânea, a Ucrânia começa a reescrever os termos do conflito: não apenas resistindo, mas avançando. Com drones de longo alcance guiados por inteligência artificial e uma estratégia que ataca a infraestrutura econômica e militar russa em sua profundidade, Kiev recuperou mais de 600 quilômetros quadrados em 2026 — invertendo uma dinâmica que por anos favoreceu Moscou. A guerra não terminou, mas o peso da iniciativa mudou de mãos.
- A Ucrânia recuperou mais de 600 km² desde o início de 2026, incluindo territórios estratégicos em Donbas que a Rússia havia controlado por anos — uma reversão que poucos analistas previam.
- Drones interceptores controlados a milhares de quilômetros forçam soldados russos a avançar em grupos de dois ou três homens, tornando cada movimento ofensivo uma aposta de vida ou morte.
- A Rússia registrou cerca de 83 mil baixas militares apenas em 2026, enquanto gasta quase 8% do PIB em recrutamento e enfrenta êxodo populacional de cidadãos que recusam o alistamento.
- Moscou cortou o Telegram e a internet em zonas estratégicas para conter a resistência interna, mas acabou isolando suas próprias tropas no campo de batalha.
- Putin, ainda determinado a anexar território ucraniano, pode intensificar ataques a infraestruturas civis no inverno — água, aquecimento, energia — e usar mísseis Oreshnik com maior frequência, tornando a próxima fase do conflito profundamente imprevisível.
Quatro anos de guerra transformaram a fronteira entre Ucrânia e Rússia em um laboratório brutal de estratégia moderna. O que antes era marcado por ofensivas russas em múltiplas direções tornou-se, em 2026, um campo onde soldados de Moscou avançam isolados, sem internet, sem reforços em massa, sob o olhar constante de drones ucranianos.
Em junho, o comandante Oleksandr Syrskyi confirmou a recuperação de mais de 600 quilômetros quadrados desde o início do ano — incluindo áreas próximas a Kostyantynivka, Pokrovsk e Kherson, no coração do Donbas. O Instituto para os Estudos da Guerra estimou que só em maio foram retomados 290 km². A reversão é significativa: entre 2022 e o início de 2026, a Rússia havia controlado mais de 20% do território ucraniano.
A virada estratégica tem nome e tecnologia. O ministro da defesa Mykhailo Fedorov anunciou sistemas de inteligência artificial capazes de controlar drones interceptores a distâncias de milhares de quilômetros — uma capacidade inédita no mundo. Onde a Rússia antes tinha vantagem aérea, agora cada movimento de tropa se torna um alvo. Pesquisadores da Chatham House e da GLOBSEC reconhecem que a Ucrânia deixou de apenas reagir para exercer iniciativa estratégica real.
Do outro lado, Moscou sangra em silêncio. Cerca de 83 mil militares russos foram mortos ou gravemente feridos apenas em 2026. O recrutamento depende de bônus milionários e benefícios por morte — um custo que consome quase 8% do PIB e corrói orçamentos regionais. Famílias resistem, pessoas emigram, e o próprio governo cortou o Telegram e a internet em zonas estratégicas, isolando ainda mais suas tropas.
Mas Putin não recuou. Ele segue avançando, ainda que lentamente, e especialistas alertam que, pressionado por dificuldades crescentes, o Kremlin pode escalar os ataques a infraestruturas civis ucranianas no inverno — água, aquecimento, energia — e ampliar o uso dos mísseis supersônicos Oreshnik. A Ucrânia conquistou espaço de manobra que não tinha antes. O que ainda não se sabe é o preço que Putin está disposto a pagar para não reconhecer essa nova realidade.
Quatro anos de guerra deixaram marcas profundas na fronteira entre Ucrânia e Rússia, mas o padrão de combate mudou drasticamente nos últimos meses. Onde antes havia avanços rápidos e ofensivas em múltiplas direções, agora a Rússia enfrenta bombardeios precisos contra sua infraestrutura econômica, drones ucranianos sobrevoando posições inimigas e soldados russos isolados, sem internet para se comunicar e sem reforços em massa. A dinâmica que dominou a guerra desde 2022 começou a se inverter.
Em junho de 2026, o comandante-chefe das Forças Armadas da Ucrânia, Oleksandr Syrskyi, anunciou que seu país havia recuperado mais de 600 quilômetros quadrados desde o início do ano. O presidente Volodmir Zelenski confirmou o número semanas antes. O Instituto para os Estudos da Guerra estimou que apenas em maio foram recuperados 290 quilômetros quadrados. Esses ganhos ocorrem em uma região que abrange as proximidades de Kostyantynivka, Pokrovsk e Kherson, cidades localizadas em Donbas, a zona que Putin reclama como sua e que permanece central na disputa entre os dois países. A recuperação territorial marca uma reversão significativa: entre 2022 e o início de 2026, a Rússia havia controlado mais de 20% do território ucraniano, aproximadamente 118.641 quilômetros quadrados. Desde março deste ano, porém, o avanço do Kremlin desacelerou consideravelmente.
A mudança na balança de poder reflete uma transformação estratégica profunda. Pesquisadores da Chatham House e da GLOBSEC apontam que a Ucrânia não apenas se defende, mas agora exerce iniciativa estratégica real. A tecnologia de drones evoluiu dramaticamente. O ministro da defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov, responsável por criar uma divisão de inteligência artificial e processamento de dados, anunciou em março que novos sistemas permitem controlar interceptores a distâncias de milhares de quilômetros. A Ucrânia tornou-se a primeira nação a ampliar sistematicamente o controle remoto de drones interceptores. Esses equipamentos agora funcionam em alcance médio e longo, mudando completamente o campo de batalha. Onde a Rússia antes tinha vantagem aérea, agora a Ucrânia consegue atacar soldados russos sempre que se movem, forçando o inimigo a avançar com apenas dois ou três homens por vez em tentativas ofensivas.
Moscou enfrenta desafios que vão muito além do território perdido. Em abril, a Ucrânia afirmou que mais de 35 mil soldados russos foram mortos ou feridos gravemente naquele mês, totalizando aproximadamente 83 mil baixas militares apenas em 2026. O recrutamento tornou-se uma das maiores dificuldades russas. O governo não mobiliza por decreto; em vez disso, oferece bônus de recrutamento enormes e benefícios por morte para atrair voluntários. Isso custa uma fortuna: a Rússia destina quase 8% de seu PIB aos gastos de guerra. Especialistas apontam que esse peso não recai apenas no orçamento federal, mas também nos regionais, causando danos permanentes à economia. Além disso, a experiência vivida por famílias de soldados gera resistência genuína. Pessoas deixam o país, recusam novos alistamentos. O próprio governo Putin havia proibido o Telegram, a principal forma de comunicação entre militares russos, e depois cortou a internet em regiões estratégicas, isolando ainda mais suas tropas.
Apesar dos ganhos ucranianos, a Rússia permanece uma ameaça considerável nas negociações. Putin continua obcecado em vencer a guerra e anexar o máximo possível de território ucraniano. Moscou segue avançando, ainda que lentamente, com força de combate que não pode ser ignorada. Especialistas temem que, vendo suas dificuldades de recrutamento, comunicação e produção de armamentos, Putin possa tomar medidas mais drásticas. No segundo semestre, próximo ao inverno, a Rússia pode intensificar ataques contra infraestruturas civis—sistemas de água, aquecimento, energia—como forma de pressão. O sistema Oreshnik, com seus mísseis supersônicos, poderia ser usado com maior frequência contra áreas civis ucranianas. A próxima fase da guerra permanece imponderável. O que está claro é que a Ucrânia conquistou espaço de manobra que não tinha antes, mas Putin ainda não aceitou a derrota que essa nova realidade implica.
Citações Notáveis
A vantagem nesta guerra tem oscilado ao longo do tempo. O que temos visto agora é uma retomada da iniciativa pela Ucrânia— Keir Giles, pesquisador associado do Programa Rússia e Eurásia na Chatham House
Isso custa uma fortuna para a Rússia, porque eles não estão recrutando por meio de mobilização, mas sim por meio de enormes bônus de recrutamento— Keir Giles
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como a Ucrânia conseguiu reverter uma guerra que parecia perdida há meses?
Não foi uma reversão repentina. Foi uma mudança de estratégia. Em vez de tentar defender tudo ao mesmo tempo, a Ucrânia começou a atacar a infraestrutura russa e a isolar soldados inimigos. Os drones evoluíram muito. Agora conseguem operar a milhares de quilômetros de distância.
E a Rússia não consegue fazer o mesmo?
A Rússia tem drones, mas perdeu a vantagem. Além disso, seus soldados não conseguem se comunicar direito. Cortaram a internet em várias regiões. Isso deixa as tropas russas muito vulneráveis.
Qual é o custo real disso para a Rússia?
Enorme. Eles gastam 8% do PIB em guerra. Precisam pagar bônus gigantescos para recrutar pessoas porque ninguém quer ir. E as famílias dos soldados mortos veem isso. Muita gente está deixando o país.
Putin vai aceitar isso?
Provavelmente não. Ele pode intensificar ataques contra cidades, contra sistemas de água e aquecimento no inverno. Pode usar mais mísseis supersônicos. A guerra pode ficar muito pior antes de melhorar.
Então os 600 quilômetros recuperados não significam que a Ucrânia venceu?
Significam que a Ucrânia ganhou espaço. Mas Putin ainda controla 20% do país. Ele não vai sair fácil. O que mudou é que agora a Ucrânia pode lutar de verdade, não apenas sobreviver.