73% das pequenas indústrias de SP já sentem impacto do aperto monetário

Redução de investimentos, suspensão de projetos e dificuldade de acesso a crédito afetam a viabilidade operacional das micro e pequenas indústrias paulistas.
O sacrifício econômico não estava gerando o resultado prometido
Enquanto 73% das pequenas indústrias sofrem com juros altos, 68% ainda não veem a inflação caindo.

Em meio a uma das mais agressivas rodadas de aperto monetário da história recente do Brasil, as micro e pequenas indústrias paulistas — que representam quase metade de toda a base industrial do país — revelaram, em maio de 2022, que o remédio prescrito pelo Banco Central estava adoecendo quem já era frágil. Sete em cada dez empresários ouvidos pelo Datafolha sentiam os juros de 12,75% ao ano corroendo seu capital, seus investimentos e sua capacidade de crescer. O paradoxo central dessa história é antigo e doloroso: o sacrifício era real, mas a cura prometida — a queda da inflação — ainda não havia chegado.

  • 73% das micro e pequenas indústrias paulistas relatam prejuízos diretos com a Selic em 12,75% ao ano, e quase metade diz que o impacto é severo.
  • O custo de financiar novos investimentos disparou para 52% dos empresários, enquanto o crédito para capital de giro e consumo encareceu em cascata, paralisando projetos e comprimindo margens.
  • O paradoxo que irrita o setor: o Banco Central eleva juros para derrubar a inflação, mas 68% dos industriais ouvidos ainda não veem os preços recuando — pagam o preço sem receber o benefício.
  • Com São Paulo concentrando 42% de todas as micro e pequenas indústrias do Brasil, o que parece um problema local é, na verdade, um termômetro do estado de saúde da indústria nacional.

Em maio de 2022, uma pesquisa encomendada pelo Sindicato das Micro e Pequenas Indústrias de São Paulo ao Datafolha traduziu em números o que muitos empresários já viviam no dia a dia: o aperto monetário promovido pelo Banco Central estava sufocando seus negócios. Com a Selic em 12,75% ao ano — e ainda subindo —, 73% dos pequenos e micro industriais paulistas afirmaram que a política de juros os prejudicava. Para 45% deles, o dano era severo.

Os impactos eram múltiplos e se reforçavam mutuamente. Mais da metade dos entrevistados apontou o encarecimento do financiamento de novos investimentos como o principal golpe. Metade citou o custo mais alto para que consumidores financiassem bens. Quase metade mencionou a dificuldade de clientes obterem capital de giro, o encarecimento do crédito imobiliário e o peso maior do cheque especial e do cartão de crédito. O resultado prático era a suspensão de projetos, a redução do capital de giro e o fechamento progressivo das portas do crédito.

No centro da história havia um paradoxo que o presidente do Simpi, Joseph Couri, não hesitou em nomear: a justificativa oficial para o sacrifício era conter a inflação, mas 68% dos industriais ainda não viam os preços ceder. Apenas 19% acreditavam que a inflação já havia começado a recuar. O custo era real e imediato; o benefício prometido, incerto e distante.

A dimensão do problema ganhava escala quando se considerava que São Paulo concentra 42% de todas as micro e pequenas indústrias do Brasil. O que os dados daquela pesquisa capturavam não era uma crise regional — era um retrato do que o aperto monetário estava fazendo com uma parcela decisiva da estrutura produtiva do país.

Em maio de 2022, quando o Banco Central mantinha a taxa básica de juros em patamares que não paravam de subir, uma pesquisa encomendada pelo Sindicato das Micro e Pequenas Indústrias de São Paulo revelou o que muitos empresários já sabiam na prática: o aperto monetário estava sufocando seus negócios. Sete em cada dez pequenos e micro industriais paulistas — 73% daqueles ouvidos pelo Datafolha — disseram que a Selic elevada estava prejudicando suas operações. Para quase metade deles, o prejuízo era severo. Enquanto isso, apenas 27% afirmavam não sentir os efeitos da política de juros que havia alcançado 12,75% ao ano.

Os números revelavam a profundidade do problema. Quarenta e cinco por cento dos entrevistados relataram que o juro elevado estava prejudicando muito seus negócios. Outros 28% disseram que o aperto tinha prejudicado um pouco. A coleta de dados havia ocorrido entre 17 e 29 de abril, quando a Selic ainda estava em 11,75% ao ano — ou seja, os efeitos mais agudos ainda estavam por vir.

Quando perguntados sobre os impactos específicos, o quadro ficava ainda mais claro. Cinquenta e dois por cento dos dirigentes apontaram o aumento no custo para financiar novos investimentos na empresa como o principal efeito negativo. Metade deles citou o custo mais alto para consumidores financiarem bens de consumo. Quarenta e nove por cento mencionaram a dificuldade de clientes conseguirem capital de giro, e o mesmo percentual apontou o encarecimento do financiamento imobiliário. Quarenta e oito por cento reclamaram do custo mais alto para usar cheque especial ou cartão de crédito, enquanto 47% citaram empréstimos mais caros. E 45% simplesmente viram a atividade econômica em geral desacelerar.

Mas havia um paradoxo incômodo no centro dessa história. O Banco Central havia elevado os juros justamente para conter a inflação, argumentando que o aperto econômico esfriaria a demanda e traria os preços para baixo. Porém, a pesquisa mostrou que 68% das micro e pequenas indústrias paulistas ainda não viam a inflação ceder. Elas não conseguiam prever quando começaria a baixar. Apenas 19% acreditavam que a inflação já havia começado a recuar, e 12% esperavam que isso acontecesse nos próximos meses. O sacrifício econômico, portanto, não estava gerando o resultado prometido.

Joseph Couri, presidente do Simpi, resumiu a frustração em uma avaliação oficial: a justificativa para aumentar os juros — esfriar a economia para conter a inflação — ainda não havia surtido o efeito esperado. Enquanto isso, os pequenos industriais estavam tendo seus negócios sacrificados, com redução do capital de giro, suspensão ou adiamento de investimentos e dificuldade crescente para obter crédito. Era um cenário em que as empresas pagavam o preço da política monetária sem ver os benefícios que ela supostamente traria.

O contexto tornava a situação ainda mais relevante: o Simpi calculava que 42% de todas as micro e pequenas indústrias do Brasil estavam localizadas em São Paulo. Isso significava que o impacto documentado naquela pesquisa não era um problema regional isolado, mas um sinal do que estava acontecendo em uma parcela substancial da base industrial do país.

A justificativa para o aumento da taxa de juros que seria esfriar a atividade econômica para conter a inflação na verdade ainda não surtiu o efeito esperado, o que tem sacrificado muito os negócios
— Joseph Couri, presidente do Simpi
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que essas empresas pequenas sentem o aperto de juros tão rapidamente, mais do que as grandes?

Model

Porque elas não têm as mesmas opções. Uma grande empresa pode ter linhas de crédito já negociadas, reservas de caixa, acesso a mercados internacionais. A pequena indústria depende de crédito local, de capital de giro curto, de margens apertadas. Quando a Selic sobe, o banco cobra mais caro no dia seguinte.

Inventor

Mas se a inflação é o problema, não deveria o aumento de juros ajudar todos eventualmente?

Model

Deveria, teoricamente. Mas a pesquisa mostra que 68% desses empresários ainda não veem a inflação caindo. Eles estão pagando o preço agora — suspendendo investimentos, reduzindo capital de giro — sem saber se o benefício virá.

Inventor

Qual é o efeito mais imediato que eles sentem?

Model

O financiamento de novos investimentos. Cinquenta e dois por cento citaram isso. Uma pequena fábrica que queria comprar uma máquina nova, expandir, contratar — tudo fica congelado quando o juro fica caro demais.

Inventor

E os clientes deles? Como sofrem?

Model

Também sofrem. Cinquenta por cento dos empresários citaram que consumidores agora têm dificuldade para financiar bens de consumo. Se o cliente não consegue comprar, a fábrica não vende. É uma reação em cadeia.

Inventor

Então o aperto monetário está criando um problema que ele deveria resolver?

Model

Exatamente. Está reduzindo a atividade econômica — 45% citaram isso — mas sem que a inflação ceda. É o pior dos dois mundos: economia enfraquecida, preços ainda altos.

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