A violência permanece invisível não porque não exista, mas porque a sociedade ainda não construiu os mecanismos para enfrentá-la
Uma pesquisa do Instituto Natura e da Avon lança luz sobre uma ferida silenciosa: a maioria dos brasileiros não sabe como agir diante da violência contra a mulher, e muitas das próprias vítimas não reconhecem o que vivem como violência. O estudo, aplicado entre junho e agosto com mais de quatro mil pessoas em todo o país, não revela apenas uma lacuna de informação — revela a persistência de um silêncio cultural que protege o agressor e isola quem sofre. Enquanto quase todos declaram responsabilidade coletiva, a maioria ainda acredita que o que acontece entre quatro paredes deve ficar entre quatro paredes.
- Seis em cada dez brasileiros admitem não saber como ajudar uma mulher em situação de violência — um vazio que deixa vítimas sem rede de apoio.
- Quarenta por cento das brasileiras que sofreram agressões não as reconhecem como violência, revelando como o abuso se camufla no cotidiano e escapa até da própria percepção de quem o vive.
- O abismo entre discurso e ação é gritante: 98% das mulheres dizem que agiriam se fossem violentadas, mas apenas 73% das que realmente sofreram buscaram algum tipo de ajuda.
- Sessenta por cento da população ainda acredita que conflitos de casal devem ser resolvidos apenas entre os parceiros, mantendo a violência doméstica confinada à esfera privada.
- O índice será monitorado ao longo do tempo e já foi aplicado em outros cinco países latino-americanos, onde padrões semelhantes de desinformação e omissão se repetem.
Uma pesquisa lançada pelo Instituto Natura e pela Avon expõe um cenário perturbador: seis em cada dez brasileiros dizem não saber como agir diante de uma mulher sofrendo violência. O Índice de Conscientização sobre Violência contra Mulheres, aplicado entre junho e agosto com mais de quatro mil entrevistados em todas as regiões do país, revela não apenas uma lacuna de conhecimento, mas um padrão profundo de invisibilidade enraizado na sociedade brasileira.
Os números são claros. Apenas 38% da população consegue nomear leis, identificar os diferentes tipos de violência doméstica ou sabe para onde denunciar. Quatro em cada dez brasileiras não reconhecem espontaneamente as agressões que vivenciaram como violência. E 40% dos entrevistados não se lembram de ter visto nenhuma campanha de conscientização no último ano.
O dado mais revelador, porém, é o descompasso entre discurso e prática. Noventa e oito por cento das mulheres afirmam que tomariam alguma atitude se sofressem violência. Na realidade, entre as que passaram por situações de agressão, apenas 73% buscaram ajuda — e a maioria o fez de forma privada, sem formalizar denúncia. Para a antropóloga Beatriz Accioly, do Instituto Natura, a violência segue sendo tratada como problema doméstico, quando deveria ser reconhecida como questão social que exige intervenção pública.
O paradoxo se aprofunda: 96% reconhecem responsabilidade coletiva diante da violência, mas 60% acreditam que conflitos de casal devem ser resolvidos apenas entre os parceiros, e 15% afirmam que não interviriam por considerar o assunto alheio. Essa contradição revela como a violência doméstica se perpetua mesmo em uma sociedade que, em tese, a rejeita.
O levantamento foi aplicado também em Argentina, Chile, Colômbia, Peru e México, com padrões semelhantes: em todos os países, mais de um terço da população afirma não ter informações suficientes para ajudar uma mulher em situação de violência. Para Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura, o índice é um instrumento permanente de acompanhamento — uma bússola para orientar ações que promovam transformação real. A violência doméstica permanece invisível não porque não exista, mas porque a sociedade ainda não construiu os mecanismos coletivos para vê-la e enfrentá-la.
Uma pesquisa lançada este mês pelo Instituto Natura e pela Avon revela um cenário perturbador: seis em cada dez brasileiros dizem não saber como agir diante de uma mulher sofrendo violência. O Índice de Conscientização sobre Violência contra Mulheres, aplicado entre junho e agosto com mais de quatro mil entrevistados em todas as regiões do país, expõe não apenas uma lacuna de conhecimento, mas um padrão profundo de invisibilidade que atravessa a sociedade brasileira.
Os números são claros e preocupantes. Apenas 38% da população consegue nomear leis, identificar os diferentes tipos de violência doméstica — física, sexual, patrimonial, moral e psicológica — ou sabe para onde denunciar. Quatro em cada dez brasileiras, por sua vez, não reconhecem espontaneamente as agressões que vivenciaram como violência contra a mulher. Quando perguntadas sobre campanhas de conscientização nos últimos ano, 40% dos entrevistados não se lembram de ter visto nenhuma. Apenas 29% da população demonstrou alto ou muito alto nível de conscientização sobre o tema, enquanto 28% apresentaram níveis baixos ou muito baixos.
Mas talvez o dado mais revelador seja o descompasso entre o que as pessoas dizem e o que fazem. Quando questionadas hipoteticamente, 98% das mulheres afirmaram que tomariam alguma atitude se sofressem violência, especialmente acionando a polícia. A realidade, porém, é outra. Entre aquelas que de fato passaram por situações de agressão, apenas 73% buscaram ajuda — e a maioria o fez de forma privada, sem formalizar denúncia ou envolver as autoridades. Esse silêncio não é acidental. Segundo Beatriz Accioly, antropóloga e líder de Políticas Públicas pelo Fim da Violência Contra Meninas e Mulheres no Instituto Natura, a violência permanece sendo tratada como um problema doméstico, confinado à esfera privada, em vez de ser reconhecida como uma questão social mais ampla que exige intervenção pública.
O paradoxo se aprofunda quando se observa a responsabilidade que as pessoas dizem sentir. Noventa e seis por cento dos entrevistados reconhecem responsabilidade coletiva diante da violência contra a mulher. Ao mesmo tempo, 60% acreditam que conflitos de casal devem ser resolvidos apenas entre os parceiros, e 15% afirmam que não ajudariam por considerar o assunto alheio. Essa contradição — entre o reconhecimento abstrato de responsabilidade e a recusa concreta de intervir — revela como a violência doméstica consegue se perpetuar mesmo em uma sociedade que, teoricamente, a rejeita.
Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura, enquadra o índice não como um retrato pontual, mas como um instrumento permanente de acompanhamento. A intenção é compreender se a sociedade está evoluindo e orientar ações que promovam transformação real. O levantamento foi aplicado também em Argentina, Chile, Colômbia, Peru e México, revelando padrões semelhantes em toda a região: em todos os países, mais de um terço da população afirma não ter informações suficientes para ajudar uma mulher em situação de violência.
O cenário aponta para uma falha estrutural nas políticas de conscientização. Apesar dos avanços em legislação e campanhas públicas, a informação não está chegando onde deveria. Mulheres que vivem violência não a nomeiam como tal. Pessoas que testemunham agressão não sabem para onde encaminhar a vítima. E mesmo quando sabem, muitos acreditam que o problema não é seu. A violência doméstica permanece invisível não porque não exista, mas porque a sociedade ainda não construiu os mecanismos coletivos para vê-la e enfrentá-la.
Citas Notables
A conscientização é parte da solução do problema social que é a violência contra mulheres e meninas— Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura
A violência contra a mulher, em especial a doméstica, é mantida na esfera privada e não tratada como um problema social mais amplo— Beatriz Accioly, antropóloga e líder de Políticas Públicas no Instituto Natura
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que você acha que as mulheres não reconhecem a violência que vivem como violência?
Porque crescemos aprendendo a normalizar certos comportamentos. Uma mulher que é controlada, que tem seus gastos monitorados, que é humilhada — ela pode não ter palavras para nomear isso. A violência psicológica e patrimonial não deixam marcas visíveis. E quando você vive algo desde sempre, fica difícil perceber que é errado.
Mas 98% das mulheres dizem que agiriam se sofressem violência. Como isso se encaixa?
É a diferença entre o que imaginamos que faríamos e o que realmente fazemos quando estamos dentro da situação. Quando você está em um relacionamento abusivo, há dependência emocional, financeira, às vezes filhos envolvidos. O medo é real. A vergonha também. Então aquela decisão teórica de chamar a polícia desaparece.
E por que 60% das pessoas acham que conflitos de casal devem ficar entre o casal?
Porque ainda vemos o casamento como um espaço privado, sagrado, onde ninguém mais deveria entrar. Mas quando há violência, não é mais um conflito — é um crime. A dificuldade está em fazer as pessoas entenderem essa diferença.
O que muda se as pessoas tivessem essa informação?
Tudo. Se soubessem que existem leis específicas, que há canais de denúncia, que a violência psicológica é tão grave quanto a física — mulheres denunciariam mais, pessoas ajudariam mais. Mas também precisam acreditar que vale a pena, que o sistema vai protegê-las.
E as campanhas? Por que 40% não veem nada sobre isso?
Porque a gente não está falando em lugares onde essas pessoas estão. Ou estamos falando de forma que não toca, que não muda comportamento. Conscientização não é só informação — é transformação.