40% das meninas faltam à escola mensalmente por dor menstrual

Meninas e mulheres têm sua educação e vida profissional interrompidas mensalmente por dor menstrual não tratada, afetando trajetória escolar e oportunidades.
Dor incapacitante durante a menstruação não é normal
Reflexão sobre como a normalização da dor menstrual atrasa diagnósticos e perpetua sofrimento desnecessário.

Todo mês, quatro em cada dez meninas brasileiras deixam de ir à escola por causa de dor menstrual — uma interrupção silenciosa e repetida que molda trajetórias educacionais inteiras. Uma pesquisa dos institutos Alana e Info, divulgada em maio de 2026, coloca números precisos sobre algo que a sociedade há muito tempo trata como inevitável. Por trás das faltas está não apenas o sofrimento imediato, mas o risco de que condições sérias como a endometriose permaneçam invisíveis por anos, enquanto meninas aprendem, desde cedo, que dor incapacitante é apenas parte de ser mulher.

  • Seis em cada dez alunas têm a rotina escolar afetada pela menstruação, e 40% chegam a faltar às aulas todo mês — uma perda educacional que se repete indefinidamente.
  • Cólicas intensas respondem por 57,7% das ausências, mas cansaço extremo, vergonha e até a falta de banheiros adequados nas escolas também empurram meninas para fora das salas de aula.
  • Meninas negras faltam mais do que meninas brancas, mesmo relatando menos cólicas — uma contradição que aponta para subnotificação e desigualdade no acesso ao cuidado em saúde.
  • A normalização da dor menstrual atrasa em média oito anos o diagnóstico de endometriose, doença que afeta uma em cada dez mulheres e pode começar a se manifestar desde a primeira menstruação.
  • O problema não termina na adolescência: 12% das professoras ouvidas na pesquisa também já deixaram de dar aula ao menos uma vez por mês pela mesma razão.

Quatro em cada dez meninas faltam à escola todos os meses por causa de dor menstrual. O dado vem de uma pesquisa dos institutos Alana e Info, divulgada no final de maio, e revela algo mais profundo do que um simples incômodo: uma interrupção sistemática da educação de milhões de adolescentes. Quando se amplia o olhar, seis em cada dez alunas relatam que a menstruação afeta sua rotina escolar de alguma forma — seja impedindo a presença, seja tornando impossível concentrar-se.

Entre as que precisam faltar, as cólicas intensas lideram os motivos, apontadas por 57,7% das meninas. Cansaço extremo e dores no corpo aparecem em mais de 30% dos casos. Outros fatores, como vergonha, medo de vazamento e a ausência de banheiros adequados ou produtos de higiene nas escolas, também contribuem — este último responsável pelas faltas de 8,2% das entrevistadas. O problema, além disso, não se restringe às alunas: 12% das professoras ouvidas relataram ter deixado de dar aula ao menos uma vez por mês pela mesma razão.

Os dados também expõem desigualdades. Meninas negras relatam menos cólicas do que meninas brancas, mas faltam mais: 14,5% delas ausentam-se de dois a cinco dias por mês, contra 9,6% das estudantes brancas. A discrepância sugere subnotificação — possivelmente reflexo de diferenças no acesso à saúde ou na forma como essas meninas são ouvidas quando descrevem seus sintomas.

O nó central é a normalização. Quando se aprende desde cedo que dor incapacitante durante a menstruação é apenas parte da vida, deixa-se de buscar ajuda especializada. Isso atrasa diagnósticos de condições sérias como a endometriose, que afeta uma em cada dez mulheres. A ginecologista Taís Martins Loreto, do Núcleo de Endometriose do Hospital São Luiz São Caetano do Sul, alerta que os sintomas na adolescência costumam ser atípicos e descartados como normais. Em média, as mulheres levam oito anos para receber um diagnóstico confirmado — e muitas já ultrapassaram os 30 quando isso acontece. O resultado é que meninas e mulheres têm sua educação e suas vidas profissionais interrompidas mês após mês por uma dor que, em muitos casos, poderia ser investigada e tratada.

Quatro em cada dez meninas faltam à escola todos os meses por causa de dor menstrual. Esse número emerge de uma pesquisa realizada pelo Instituto Alana e Instituto.Info divulgada no final de maio, e ele revela algo que vai além de um simples incômodo: trata-se de uma interrupção sistemática da educação de milhões de adolescentes. Quando se amplia o olhar, a situação fica ainda mais clara. Seis em cada dez alunas relatam que a dor menstrual afeta sua rotina escolar de alguma forma — seja impedindo-as de comparecer às aulas, seja tornando impossível concentrar-se durante o dia.

Entre as meninas que precisam faltar por sintomas menstruais, as cólicas intensas são a razão principal: 57,7% delas apontam esse como o motivo. Um pouco mais de 30% mencionam cansaço extremo e dores no corpo. Outras razões aparecem com menor frequência — dores de cabeça, vergonha ou medo de vazamento, e a falta de banheiros adequados ou produtos de higiene nas escolas. Esse último fator, embora pareça menor, foi responsável pelas faltas de 8,2% das entrevistadas. O que torna a questão ainda mais perturbadora é que o problema não se limita às alunas. Doze por cento das professoras ouvidas na pesquisa relataram ter deixado de dar aula pelo menos uma vez por mês por causa da dor menstrual. Isso aponta para uma realidade que acompanha as mulheres ao longo de toda a vida, não apenas durante a adolescência.

Os dados também revelam disparidades que merecem atenção. Enquanto cerca de 37% das adolescentes brancas disseram sentir cólicas fortes, apenas 25,9% das meninas negras fizeram a mesma afirmação. À primeira vista, isso poderia sugerir que meninas brancas sofrem mais. Mas os números de absenteísmo contam uma história diferente: 14,5% das meninas negras faltaram de dois a cinco dias por mês, comparado a 9,6% das estudantes brancas. Essa discrepância sugere que há uma subnotificação de dor entre meninas negras, possivelmente refletindo diferenças no acesso a cuidados de saúde ou na forma como essas meninas são ouvidas quando relatam seus sintomas.

O problema central, porém, é que a dor menstrual continua sendo tratada como algo normal, quase inevitável, em vez de ser reconhecida como um problema de saúde pública que merece atenção nas escolas e nos serviços de saúde. Essa normalização tem consequências graves. Quando as mulheres aprendem desde cedo que dor incapacitante durante a menstruação é apenas parte da vida, elas deixam de procurar ajuda especializada. E isso atrasa diagnósticos de condições sérias, como a endometriose — uma doença que afeta uma em cada dez mulheres. Taís Martins Loreto, ginecologista do Núcleo de Endometriose do Hospital e Maternidade São Luiz São Caetano do Sul, explica que a frequência de dor menstrual intensa é subestimada entre adolescentes justamente porque é considerada normal. A endometriose pode se manifestar com dor pélvica crônica, dor durante relações sexuais, inchaço abdominal, sangramento aumentado, além de sintomas urinários e intestinais.

O atraso no diagnóstico é impressionante: em média, as mulheres levam oito anos para receber um diagnóstico confirmado de endometriose, e muitas já têm mais de 30 anos quando isso acontece. Loreto aponta que a situação é ainda mais desafiadora na adolescência, quando os sintomas podem ser atípicos e levar anos para serem reconhecidos e tratados adequadamente. Algumas mulheres começam a sentir sintomas desde a primeira menstruação, mas esses sinais são frequentemente descartados como normais. O resultado é que meninas e mulheres têm sua educação e suas vidas profissionais interrompidas mês após mês por uma dor que poderia ser investigada e, em muitos casos, tratada. Não é normal sentir dor incapacitante durante o período menstrual. E não deveria ser normal que metade da população — meninas e mulheres — receba tão pouca educação sobre um fenômeno biológico que as acompanha por décadas.

A frequência deste sintoma é subestimada entre o público adolescente, pois muitas vezes se considera a dor como normal da menstruação e não se procura ajuda especializada
— Taís Martins Loreto, ginecologista do Núcleo de Endometriose do Hospital e Maternidade São Luiz São Caetano do Sul
A endometriose pode ser ainda mais desafiadora na adolescência, devido muitas vezes ao atraso em diagnosticar a doença
— Taís Martins Loreto
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que uma pesquisa sobre faltas escolares por dor menstrual importa agora, em 2026?

Model

Porque durante anos tratamos isso como um problema individual — "algumas meninas têm cólicas fortes" — quando na verdade é um padrão que afeta milhões. Quarenta por cento é um número que não dá para ignorar. Significa que em uma sala de trinta alunas, doze estão faltando regularmente.

Inventor

E por que as meninas negras faltam mais se relatam menos dor?

Model

Essa é a pergunta que a pesquisa levanta sem responder completamente. Pode ser que elas sintam menos dor — há fatores biológicos e sociais envolvidos. Mas é mais provável que haja subnotificação. Se você cresce em um ambiente onde sua dor é menos validada, você aprende a não falar sobre ela.

Inventor

A endometriose é mencionada como uma doença que demora oito anos para ser diagnosticada. Como a dor menstrual normalizada contribui para isso?

Model

Quando você é uma menina de 13 anos com dor incapacitante e todos ao seu redor dizem "é normal, toda menina tem cólica", você não procura um médico. Você apenas sofre. Oito anos depois, quando finalmente alguém leva a sério, você já é uma mulher adulta que perdeu anos de qualidade de vida.

Inventor

As professoras também faltam por dor menstrual. O que isso diz?

Model

Diz que isso não é um problema de adolescência que passa. É um problema que acompanha as mulheres a vida toda. Doze por cento das professoras faltam mensalmente. Isso significa que a interrupção não termina quando você sai da escola.

Inventor

Se a dor menstrual é tão comum, por que não é tratada como prioridade de saúde pública?

Model

Porque afeta mulheres. Historicamente, problemas que afetam principalmente mulheres recebem menos financiamento, menos pesquisa, menos atenção. A dor menstrual foi normalizada tanto que deixou de ser vista como um problema que merece solução.

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