Transformar um enorme volume de dados em informações úteis para a tomada de decisão
Há quase três décadas, produtores rurais do norte de Mato Grosso do Sul ergueram uma instituição para combater um parasita invisível — e, ao fazê-lo, plantaram sem saber as sementes de um centro científico que hoje orienta mais de 600 mil hectares de lavoura. A Fundação Chapadão, ao completar 29 anos, não celebra apenas sua longevidade, mas a capacidade humana de transformar urgência prática em conhecimento duradouro. Diante de um mundo que exige do campo respostas cada vez mais sofisticadas — inteligência artificial, rastreabilidade, resiliência climática —, a instituição se posiciona como ponte entre o laboratório e a terra.
- A agricultura regional enfrenta pressões simultâneas: mudanças climáticas imprevisíveis, mercados internacionais exigindo rastreabilidade e uma crescente dependência de insumos importados que oscilam ao sabor da geopolítica.
- A inteligência artificial já está transformando o cotidiano das lavouras, permitindo análises de satélite em tempo real, previsão de produtividade e identificação antecipada de riscos — mas sua adoção exige estrutura científica capaz de interpretar e validar esses dados.
- A Fundação responde com sete pesquisadores e laboratórios especializados em sete disciplinas, avaliando não apenas o rendimento das culturas, mas o comportamento das plantas diante do solo, do clima e das doenças específicas do cerrado sul-mato-grossense.
- Os investimentos estaduais cresceram de R$ 2,5 milhões por safra para R$ 3,7 milhões no ciclo 2024/2025, sinalizando que o poder público reconhece a pesquisa científica como estratégia essencial — e não como custo opcional.
- A trajetória da instituição aponta para um futuro em que ciência, tecnologia e sustentabilidade deixam de ser diferenciais competitivos e se tornam condições básicas de sobrevivência para o agronegócio regional.
Há quase três décadas, um grupo de produtores rurais do norte de Mato Grosso do Sul criou uma instituição para enfrentar os nematoides — parasitas microscópicos que devastavam suas lavouras de soja. O que nasceu da necessidade prática tornou-se, ao longo de 29 anos, um dos principais centros de pesquisa agropecuária do Estado. Hoje, a Fundação Chapadão se prepara para responder aos desafios que definem a agricultura contemporânea: inteligência artificial, mudanças climáticas e exigências crescentes de sustentabilidade.
A instituição atua em oito municípios do norte de MS, impactando diretamente mais de 600 mil hectares cultivados com soja, milho e algodão. Sua estrutura científica conta com sete pesquisadores e laboratórios especializados em fitopatologia, entomologia, nematologia, genética e fertilidade do solo, entre outras áreas. Os estudos vão do controle biológico de pragas à validação de novas cultivares, sempre avaliando o desempenho das variedades diante das condições específicas de clima, solo e doenças presentes na região.
A inteligência artificial desponta como a próxima revolução tecnológica no campo. Segundo o diretor-executivo da Fundação, a tecnologia já está presente no monitoramento de lavouras, na mecanização e na interpretação de grandes volumes de dados rurais. Imagens de satélite, históricos produtivos e informações climáticas passam a ser processados com velocidade e precisão antes impossíveis, auxiliando produtores na antecipação de riscos e na tomada de decisões.
A sustentabilidade tornou-se eixo central das pesquisas. No algodão, já é possível rastrear a origem da produção desde a fazenda até o lote colhido — exigência valorizada pelos compradores internacionais. Paralelamente, reduzir a dependência de fertilizantes e defensivos importados tornou-se questão estratégica diante das oscilações geopolíticas globais.
Os recursos estaduais destinados à Fundação cresceram de R$ 2,5 milhões por safra para R$ 3,7 milhões no ciclo 2024/2025. Para os pesquisadores e gestores envolvidos, o papel da ciência no campo tende a se tornar ainda mais estratégico — e a Fundação Chapadão pretende continuar sendo a ponte entre o laboratório e a lavoura no agronegócio sul-mato-grossense.
Há quase três décadas, um grupo de produtores rurais do norte de Mato Grosso do Sul criou uma instituição para enfrentar um problema que ameaçava suas lavouras de soja: os nematoides, parasitas microscópicos que destroem raízes e reduzem drasticamente a produção. Aquela iniciativa nascida da necessidade prática transformou-se, ao longo de 29 anos, em um dos principais centros de pesquisa agropecuária do Estado, e agora a Fundação Chapadão se prepara para responder aos desafios que definem a agricultura contemporânea: inteligência artificial, mudanças climáticas e exigências crescentes de sustentabilidade.
O alcance da instituição é vasto. Ela atua em oito municípios — Chapadão do Sul, Costa Rica, Paraíso das Águas, Alcinópolis, Cassilândia, Paranaíba, Coxim e Sonora — impactando diretamente mais de 600 mil hectares de terras cultivadas. O trabalho permanece concentrado nas três culturas que sustentam a economia agrícola regional: soja, milho e algodão. Para Ilton Henrichsen, presidente da Fundação, as condições climáticas do norte do Estado favorecem a consolidação dessas atividades, tornando a região uma das mais estáveis para produção de grãos no país. As pesquisas continuarão focadas no desenvolvimento de novas variedades, no aumento da produtividade e em soluções para os desafios que surgem a cada safra.
A estrutura científica cresceu significativamente desde aqueles primeiros anos de combate aos nematoides. Hoje a Fundação conta com sete pesquisadores e laboratórios especializados em fitopatologia, entomologia, nematologia, herbologia, genética, análise de sementes e fertilidade do solo. Os estudos abrangem desde o controle biológico de pragas até a validação de novas cultivares e tecnologias para mitigar os impactos climáticos. Uma das principais missões é avaliar, em condições regionais, as variedades que chegam ao mercado, identificando quais apresentam melhor desempenho diante do clima, do solo e das doenças presentes em Mato Grosso do Sul. Fábio Lima Abrantes, engenheiro agrônomo responsável pela área de genética, explica que os pesquisadores não avaliam apenas a produtividade: estudam o comportamento da planta, sua adaptação às diferentes regiões e sua resposta às condições climáticas para garantir maior segurança ao produtor.
A inteligência artificial desponta agora como a próxima revolução tecnológica no campo. Segundo André Bartolomeu Piesanti, diretor-executivo da Fundação, a tecnologia já está presente em diversas etapas da produção agrícola, desde o monitoramento de lavouras e a mecanização até a interpretação de grandes volumes de dados gerados pelas propriedades rurais. O grande diferencial é a capacidade de transformar um enorme volume de dados em informações úteis para a tomada de decisão do produtor. Abrantes destaca que a tecnologia já permite análises mais rápidas e precisas de imagens de satélite, informações climáticas e históricos produtivos, auxiliando na previsão de produtividade e na identificação antecipada de riscos para as lavouras.
A sustentabilidade tornou-se um dos eixos centrais das pesquisas desenvolvidas pela Fundação. A crescente exigência dos mercados internacionais por rastreabilidade e comprovação de boas práticas ambientais vem moldando uma nova geração de tecnologias para o campo. No caso do algodão, já é possível identificar a origem exata da produção, desde a fazenda até o lote colhido, uma exigência cada vez mais valorizada pelos compradores internacionais. Outro desafio estratégico é reduzir a dependência brasileira de insumos importados, especialmente fertilizantes e matérias-primas utilizadas na fabricação de defensivos agrícolas. Para os pesquisadores, encontrar alternativas nacionais tornou-se questão essencial para garantir competitividade ao setor diante das oscilações geopolíticas e econômicas globais.
A manutenção dessa estrutura científica depende de investimentos permanentes. Os recursos estaduais chegaram a cerca de R$ 2,5 milhões por safra nos anos de 2023 e 2024, aumentaram para R$ 3,7 milhões no ciclo 2024/2025 e devem alcançar aproximadamente R$ 2,7 milhões na safra 2026/2027. Cristiano Marcelo Espínola Carvalho, diretor-presidente da Fundect, afirma que os resultados demonstram que o Estado construiu uma base sólida de validação tecnológica capaz de oferecer mais segurança aos produtores na adoção de novas ferramentas e cultivares. Em um cenário de mudanças climáticas, novas exigências de mercado e crescente digitalização da produção rural, a avaliação dos pesquisadores é que o papel da ciência no campo tende a se tornar ainda mais estratégico. A Fundação Chapadão pretende continuar sendo uma das pontes entre o laboratório e a lavoura, transformando conhecimento em produtividade e inovação para o agro sul-mato-grossense.
Citações Notáveis
A soja e o milho estão muito consolidados na nossa região. Por isso, as pesquisas continuarão focadas no desenvolvimento de novas cultivares, no aumento da produtividade e em soluções para os desafios que surgem a cada safra— Ilton Henrichsen, presidente da Fundação Chapadão
A inteligência artificial veio para ficar. O grande diferencial é a capacidade de transformar um enorme volume de dados em informações úteis para a tomada de decisão do produtor— André Bartolomeu Piesanti, diretor-executivo da Fundação Chapadão
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como uma instituição criada para combater um parasita microscópico evoluiu para um centro de pesquisa de ponta?
Começou com uma ameaça real e imediata. Os nematoides estavam destruindo as lavouras de soja, e os produtores precisavam de respostas. Mas ao resolver aquele problema específico, a Fundação construiu uma infraestrutura científica que se tornou capaz de responder a qualquer desafio agrícola. A estrutura permaneceu, e o escopo se expandiu.
Por que a inteligência artificial é tão importante agora para a pesquisa agrícola?
Porque gera volume de dados que nenhum pesquisador conseguiria analisar manualmente. Imagens de satélite, históricos climáticos, informações de solo — tudo isso precisa ser interpretado rapidamente para que o produtor possa tomar decisão. A IA transforma dados brutos em inteligência acionável.
A sustentabilidade é uma escolha ética ou uma exigência de mercado?
Começou como exigência de mercado, mas virou estratégia de sobrevivência. Os compradores internacionais querem rastreabilidade, querem saber de onde vem o algodão, se foi produzido com boas práticas. Isso não é mais um diferencial — é condição para vender.
E quanto à dependência de insumos importados? Por que isso importa tanto?
Porque deixa o produtor vulnerável. Quando você depende de fertilizantes ou defensivos importados, oscilações geopolíticas e econômicas globais afetam diretamente seu custo de produção. Encontrar alternativas nacionais é questão de segurança econômica para o setor.
Os investimentos estaduais parecem flutuar. Isso é preocupante?
Há variação, sim. Mas o padrão geral é de crescimento. R$ 2,5 milhões em 2023-2024, R$ 3,7 milhões em 2024-2025. Isso mostra que o Estado reconhece que pesquisa científica é investimento, não custo. E em um cenário de mudanças climáticas, esse reconhecimento tende a se aprofundar.